setembro 2009


O povo, unido, etc, etc, etc

O povo, unido, etc, etc, etc

O jornalismo está abandonando, aos poucos, por motivos inconfessáveis, a valorização das personagens como elemento de narrativa. Emblemático é o caso de Honduras, um catalisador profundo das intenções de setores da imprensa cada vez mais perfilados em bloco sobre um ensaiado viés chavista (a nova panacéia editorial do continente) aplicado ao noticiário toda vez que um movimento de esquerda se insinua sobre velhos latifúndios – físicos e imateriais. Para tal, recorre-se cada vez mais a malabarismos de linguagem para se referir ao golpe militar que derrubou o presidente constitucionalmente eleito Manuel Zelaya.

Por conta disso, o governo golpista passou a ser chamado, aqui e acolá, de “governo de fato”, uma solução patética encontrada por alguns veículos para se referir a uma administração firmada na fraude eleitoral e na usurpação pura e simples de poder. Há, ainda, quem se refira à quadrilha de Roberto Micheleti como “governo interino”, o que só pode ser piada. Itamar Franco foi interino, esse é o beabá, até tornar-se “de fato” com o impedimento e a renúncia de Fernando Collor de Mello, mas isso não deu a ninguém o direito de, a partir de então, nomeá-lo “presidente de fato” ou chefe de um “governo de fato”. Se é governo, é de fato. Se assim não for, ou é interino, ou é golpista.

Não deixa de ser divertido o inglório exercício a que se dedica certa direita nacional envergonhada, pronta a converter em golpe de Estado a intenção do presidente (de fato, pero no mucho) Zelaya de convocar os hondurenhos a decidir, por plebiscito, a possibilidade de uma reeleição que sequer serviria a ele. Possível até que servisse à oposição – a mesma que lhe seqüestrou de pijama, o enfiou num avião e o desovou na Costa Rica. Talvez preferissem que ele tivesse comprado votos para se reeleger. Esse tipo de crime é, historicamente, melhor digerido pela mídia brasileira.

Essa gente não pode e não deve ser chamada de “governo de fato”, muito menos “interino”. Essa gente tem nome: golpistas. Bandoleiros políticos que estão, corajosamente, sendo confrontados pela diplomacia brasileira que, além de lhe condenar em todos os foros internacionais, deu abrigo a Zelaya na embaixada. Lá, o presidente (de verdade) se encontra protegido e alimentado, a causar saudável constrangimento aos golpistas que o defenestraram de Tegucigalpa, essa cidade de sonoro nome maia que, de uma hora para outra, tornou-se mundialmente popular no rastro de um vexame.

Mas comecei falando da importância de haver personagens no texto jornalístico e acabei me perdendo em necessários devaneios, porque no contexto da crise hondurenha se inclui uma cobertura, basicamente, desumana. Não no sentido da esperada brutalidade ideológica disseminada por jornais e jornalistas conservadores e, vá lá, liberais. Mas por não atentar diretamente para o fator humano estacionado nas ruas, manifestantes com as mãos perto do fogo aceso pelo golpe, sujeitos a tiros e bordoadas apenas para dizer “não”. Eu gostaria muito de saber quem são essas pessoas, mas tudo que se fala delas vem em números. Num dia, são 100 em frente à embaixada, no outro, são duas mil. Variam de dezenas a milhares da noite para o dia, sem que qualquer explicação sobre elas nos seja minimamente concedida.

Não é preciso muita sensibilidade para perceber que a chave (não Chávez!) para a compreensão do golpe em Honduras está nos hábitos e na cultura desses desconhecidos tegucigalpenses (ou seriam tegucigalpanos?). Falta quem lhes pergunte sobre os verdadeiros sentimentos desencadeados com o golpe, justo quando o mundo todo acreditava que o expediente das quarteladas jazia, para nunca mais, no túmulo dos tristes folclores latino americanos. São as personagens, sobretudo nas tragédias, que conjugam fatos e sentimentos de modo a permitir a nós, os indivíduos, compartilhar sonhos e loucuras. Daí a importância de prestar atenção nelas.

Até agora, a única personagem “de fato” é o próprio Manuel Zelaya, aliás, de figurino impagável, chapéu de cowboy sobre os cabelos escandalosamente tingidos, tal qual o bigode pouco alentador, na indisfarçável tonalidade das asas da graúna.

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Louco por Café - Capa

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A convite da Editora Senac do Distrito Federal, fiz uma imersão no mundo dos adoradores de café para escrever um livro sobre o calabrês Antonello Monardo, dono da mais importante e reverenciada marca de café consumida nos melhores bares e restaurantes de Brasília. Com Antonello – e por causa dele – tomei litros de café, não sem antes presenciar todo o processo de seleção e torrefação dos finíssimos grãos que ele manda trazer do sul de Minas Gerais. Aliás, onde se planta, segundo ele, o melhor café do mundo. Também participei de um curso de barista para entender os detalhes da preparação de uma boa xícara de café. Mais do que isso, a trajetória de Antonello Monardo foi uma maneira de eu empreender uma pesquisa saborosa, em todos os sentidos, sobre essa bebida tão brasileira, mas sobre a qual nós, brasileiros, conhecemos e entendemos tão pouco.

Essa imersão me fez aprender, por exemplo, que essa história de o café colombiano ser o melhor do planeta é puro marketing. E que muito do café que se consome no Brasil é uma porcaria misturada com pedra, palha e insetos. O livro foi totalmente ilustrado por Luigi Pedone, professor de ilustração do Espaço Cultural Renato Russo. As imagens das receitas preparadas por Antonello foram feitas pelo fotógrafo Daniel Madsen. Esse será meu quarto livro pela Editora Senac-DF, com quem mantenho uma ótima e criativa parceria. Será o primeiro bilíngue, uma vez que também será lançado em italiano, com tradução feita pelo próprio Antonello Monardo.

Então, na próxima quarta-feira, dia 23 de setembro, quem estiver em Brasília, está convidado a participar do lançamento de “Louco por Café – Antonello Monardo”, no Café Cultural da Caixa, na quadra 4 do Setor Bancário Sul. O evento será às 19 horas.

Espero vocês por lá.

Equipe do livro (esq. p/dir.): Leandro Fortes, Antonello Monardo, Luigi Pedone (ilustração) e Daniel Madsen

Equipe do livro (esq. p/dir.): Leandro Fortes, Antonello Monardo, Luigi Pedone (ilustração) e Daniel Madsen

Censores em ação: download interrompido na marra!

Censores em ação: download interrompido na marra!

Primeiro, a internet violentou o papel em sua essência física, palpável, dogmática. Roubou à História da escrita o movimento manual da pena e o batuque, ora mecânico, ora elétrico, das máquinas de escrever de outrora. Minou, por assim dizer, o essencial, a rotina, para então começar a dizimar os modelos. Em pouco mais de uma década, derreteu a credibilidade e expôs as intenções das ditas mais sérias empresas de comunicação do Brasil, apesar da permanente tensão provocada pela expectativa de cerceamento e censura. Aliás, uma tentação autoritária pela qual, ao que parece, o Senado da República ensaia se ajoelhar. São sinais dessa tormenta em que vive o jornalismo brasileiro, confinado num vazio que se estende no éter de um rápido processo de decadência moral, em parte resultante de maus hábitos de origem, como o arrivismo e a calúnia pura e simples, mas também porque sobre as redações paira um ar viciado e irrespirável cheio de maus agouros de mudança, ou melhor, de status.

São ventos recentes, os da internet, que nem marolas faziam nos primeiros anos de concentração de usuários e funcionamento da rede mundial de computadores. Como fenômeno de jornalismo, foi preciso esperar que o ambiente virtual deixasse de ser eminentemente transpositivo, na verdade, uma cópia digital dos jornais, para surgir um espaço editorial novo, essencialmente individual, mas nutrido pelas idéias do coletivo. Definidos de forma simplista, no nascimento, de diários eletrônicos, os blogs se fixaram como um instrumento de comunicação social poderoso, a ponto de se tornarem subversivos, no melhor sentido da palavra. Passaram a devorar velhos esquemas como uma nuvem de insetos, milhões deles, em crescimento exponencial. Tornaram-se, na singular definição do ministro-jornalista Franklin Martins, “grilos falantes” da mídia e inauguraram uma regulação ética nominal e permanente do noticiário. Dentro desse papel, os blogs independentes têm conseguido desmascarar, muitas vezes em tempo real, tradicionais espaços editorais voltados, historicamente, para a manipulação e distorção de matérias jornalísticas a soldo de interesses inconfessáveis. Tornaram-se, em pouco tempo, imprescindíveis.

Pensei nisso tudo por várias razões, mas principalmente porque tenho que falar, no final de outubro, com estudantes de jornalismo da Universidade de Maringá, no Paraná, sobre o fenômeno da blogosfera e discutir as razões desses maus tempos de jornalismo em que vivemos. Mas também porque a animosidade das velhas elites políticas brasileiras com a internet alcançou seu paroxismo nesse projeto inacreditável assinado pela dupla de senadores Marco Maciel (DEM-PE) e Eduardo Azeredo (PSDB-MG), de restrição de liberdade na rede mundial de computadores. Onde estão os freios dessa gente? Ainda que não houvesse muitos motivos para repudiar uma intenção de censura no mais democrático ambiente de comunicação da cultura humana em todos os tempos, bastaria um – o da civilidade – para fazer calar esse clamor de alcova que nos envergonha.

Trata-se de uma tentativa primária, nos métodos e na intenção, de conter o poder iconoclasta e o viés crítico da internet, notadamente dos blogs. Pretende-se amordaçar uma rede formada, apenas no Brasil, por 64,8 milhões de pessoas, segundo pesquisa do Ibope publicada em agosto de 2009, ou seja, no mês passado. O instituto calcula que esse número cresça, na próxima década, cerca de 10% ao mês. Portanto, mais do que dobrando de tamanho em 10 anos, a depender da intensidade das diversas políticas de inclusão digital capitaneadas pelo governo do PT. Pensar em controlar o torvelinho de informação circulante, hoje, na internet, é um exercício absoluto de arrogância, quando não de ignorância. É um exagero surpreendente, até mesmo em se tratando de uma iniciativa dessa triste e reacionária elite política e econômica brasileira. De minha parte, não acredito que o Brasil vá aceitar, inerte, essa bofetada do atraso.

Eu não vou.

 

Em tempo: Vejam a genial charge de Hupper a respeito do post. 

 

Malu Fontes, colunista de A Tarde

Malu Fontes, colunista de A Tarde

 

Malu Fontes é uma voz dissonante no jornalismo baiano. Todos os domingos, ela assina uma coluna no mais importante jornal da Bahia, A Tarde, intitulada “Teleanálise”, na qual expõe as vísceras da baixaria, da primariedade e da má fé da programação televisiva local e nacional. Dona de um texto sarcástico e deliciosamente mal humorado, ela consegue se sobrepor à hipocrisia reinante nas relações entre os chamados “colunistas de TV” e as emissoras, quase sempre baseadas no elogio fácil em troca de miçangas e jabaculês. Incomoda, por isso mesmo, a raia miúda da política baiana e seus jornalistas de bolso, sobretudo os contratados para explorar a miséria humana em programas de auditório veiculados, criminosamente, no horário do almoço dos cidadãos soteropolitanos. Por ter coragem de falar o que ninguém fala, Malu é alvo constante de campanhas difamatórias, calúnias e insultos. Não raras vezes, pediram sua cabeça em A Tarde, na vã tentativa de calar-lhe a voz crítica. Eu e Malu fomos contemporâneos na Faculdade de Comunicação da UFBA, colegas de trabalho no saudoso Jornal da Bahia e somos amigos há mais de 20 anos. No final dos anos 1980, vim para Brasília tentar a vida como repórter, ela ficou em Salvador, onde se dedicou a uma produtiva carreira acadêmica. Doutora em Comunicação e Cultura, ela também é professora de Jornalismo da UFBA. Mantém, ainda, um blog pessoal para aqueles que se interessarem em ler outros textos dela. A partir de hoje, e sempre que achar pertinente, vou reproduzir aqui no blog os artigos publicados por Malu Fontes, com autorização da autora, em A Tarde. Será um presente para todos nós. Divirtam-se.

O fio e o poder da TV

Malu Fontes (coluna “Teleanálise” publicada no jornal “A Tarde“, de Salvador)

 

Nas duas últimas semanas, não apenas os telespectadores dos programas populares, mas também leitores de jornais, sites e blogs de Salvador, tiveram sua atenção voltada para um episódio insólito e tradutor da falta de sentido de polêmicas tão fabricadas quanto vulgares. O centro das atenções foi a professora do ensino infantil cujas imagens, encenando uma coreografia que, na melhor das hipóteses, pode ser descrita como masturbação anal, mediante o puxa e repuxa de uma calcinha fio dental, foram capturadas por câmaras de celulares em um show de pagode. Nas cenas, que como quaisquer imagens nos dias atuais foram parar no YouTube, a professora está sobre um palco, diante de centenas de pessoas, co-estrelando a coreografia nada inocente, ao lado do vocalista de um grupo de pagode cujos hits mais apreciados por seu público contêm refrões do quilate de ‘a piriguete anda com o fio só todo enfiado’ e ‘eu quero tudo até o talo’.

  

A moça, alguns dias após a participação no show que culminou com a postagem das imagens na Internet, acabou tendo que abrir mão do emprego em uma escola privada de pequeno porte. Segundo o dono do estabelecimento, a demissão se deu mediante um acordo amigável, fato ocorrido há mais de um mês, sem qualquer repercussão imediata. Entretanto, de repente, quando as tais imagens já circulavam na Internet há tempos, o assunto, sabe-se lá pela mão de quem, chegou às primeiras páginas dos jornais e tornou-se pauta bate-estaca no programas populares de TV. O show grotesco foi completo e continua em cartaz, com direito à moça, agora guindada à categoria de celebridade instantânea, desembarcando na porta de estúdios de TV enrolada na bandeira brasileira.

 

(AB)USO – A polêmica em torno do assunto não poderia ser mais tosca. De um lado, apresentadores de TV bancando os amiguinhos da moça, manifestam solidariedade e argumentam, hipocritamente, que ninguém tem nada a ver com o que uma professora faz ou deixa de fazer em suas horas de lazer e diversão, em sua vida privada. Dizem que a moça é vítima da exploração de sua imagem, que estava apenas divertindo-se e que demiti-la é uma manifestação pseudo-moralista.  

 

Enquanto a defendem, claro, tais apresentadores e seus repórteres repetem e repetem as cenas extraídas da Internet, promovendo, assim, por vias nem um pouco subliminares, mais e mais o desgaste e a vulgarização da imagem e da identidade daquela que contraditoriamente consideram vítima. Ela, por sua vez, diante do limão, já ensaia a limonada: anuncia processo judicial indenizatório contra o YouTube, alegando (ab)uso indevido e veiculação não autorizada de sua imagem. Embora ainda meio desconcertada, já insinua considerar convites para ‘dançar’ ou posar sem roupa. Especula-se, inclusive, a sua participação em atrações televisiva locais e nacionais de temáticas que têm com o repertório imagético e musical que a trouxe para a boca da cena televisiva uma afinidade do tipo a mão e…

 

PROFUNDIDADE – A primeira aparição pública da professora em grande foi a ida a um estádio de futebol no último final de semana, para experimentar, sem filtros, a fama instantânea. Diz-se que a experiência não foi das mais agradáveis. Quem estava lá e não é surdo pôde ouvir palavrões e níveis abissais de manifestações misóginas dirigidos à estrela da hora. O repertório usado pelos fãs recém-conquistados tem tudo a ver com a natureza da performance que a promoveu ao mundo das celebridades de terceira linha.

 

Um outro segmento do ‘seu público’, o que insiste na tese que a demissão da escola é um ato de falso moralismo, é bom também não perder de vista que algumas profissões e carreiras exigem, sim, a manutenção pública de comportamentos um tantinho mais cuidadosos. Do mesmo modo que em sociedade alguma será considerado natural que juízes, independentemente de serem homens ou mulheres, sejam vistos enchendo a cara em bares e casas noturnas em seus horários de lazer, não há papai nem mamãe que ache engraçadinho o fato de a professora de seus pimpolhos aprendendo a ler suba a um palco após uns goros, deixe um vocalista enfiar a mão sob sua roupa, tocando eroticamente a bunda e puxando e esticando de lá, tal qual faria com uma borracha de estilingue, o fio dental de calcinha durante uma coreografia, Dezenas de donos de celulares com câmeras ficaram a postos e disponibilizaram as imagens na rede mundial de computadores.  

 

Parte do público subestima o poder, não exatamente para o bem, da televisão. Ao lançar mão de uma imagem real e usá-la para falar da falsa moralidade de quem condena a professora por divertir-se encenando em seu corpo o ato ‘todo enfiado’, o que a TV quer e faz é potencializar o escândalo e exacerbar a condenação moral da moça ao repetir sua imagem. Quando quer, o veículo faz as vezes de juiz e polícia. Que o diga Belchior. Embora seja um direito de qualquer pessoa sumir no mundo, se assim o quiser, deixando tudo para trás, o Fantástico se imbuiu do poder de caçá-lo como um criminoso, um foragido da polícia (o que não era), até achá-lo e exibi-lo ridicularizado e sem privacidade. A profundidade com que a TV entra na vida de quem ela transforma em personagem e o arranha é compatível com a mesma com o que o fio da roupa íntima arranhou a professora.

 

 

Adendo: por conta própria, coloco à disposição dos leitores o referido vídeo da professora baiana, logo abaixo.

Por favor, parem tudo que estão fazendo agora. Aproveitem a sexta-feira e comecem a relaxar com o vídeo abaixo. Eu não consigo parar de rir, desde que recebi a dica de um amigo leitor. Obviamente, José Serra não é Adolf Hitler, nem o PSDB é o Partido Nacional-Socialista da Alemanha Nazista. Mas a redublagem é fantástica, além de ser um ótimo exemplo de como é saudável e divertida a liberdade de expressão na internet. Aliás, uma das coisas mais abomináveis das personalidades extremistas é a falta de humor, à esquerda e à direita.

Então, não percam tempo. Vejam o vídeo agora. E mandem, depois, por e-mail, para os senadores Marco Maciel (DEM-PE) e Eduardo “AI-5 Digital” Azevedo (PSDB-MG), herdeiros diletos do Santo Ofício que uniram suas mentes brilhantes para produzir a mais vergonhosa peça de censura à liberdade de expressão no Brasil desde o AI-5 de verdade, aquele obrado pela ditadura dos generais. A saber, os e-mails da dupla dinâmica da vanguarda do atraso:

marco.maciel@senador.gov.br

eduardoazeredo@senador.gov.br

Vamo que vamo, companheira!

Vamo que vamo, companheira!

O pré-sal trouxe um problema extra de longo prazo à oposição, sobretudo para os tucanos, cuja sobrevivência política está cada vez mais ameaçada pela falta absoluta de um discurso capaz de se contrapor ao Palácio do Planalto. Até a descoberta das reservas de petróleo do pré-sal, ainda era possível ao PSDB e a dois de seus mais importantes satélites, DEM e PPS, enveredarem-se no varejo das guerrilhas midiáticas montadas sobre dossiês e grampos fajutos. Havia sempre a chance de desconstruir as políticas sociais do governo Lula a partir da crítica fácil (e facilmente disseminada por jornalistas amigos) ao Bolsa-Família, descrito, aqui e ali, como uma fábrica de vagabundos, de jecas tatus preguiçosos e indolentes, sem falar no estímulo à ingratidão de domésticas mais interessadas – vejam vocês! – em criar os filhos do que esquentar o corpo no fogão a troco de um salário mínimo. Agora, o espaço para esse tipo de manobra tornou-se diminuto, para não dizer irreal.

A capacidade futura de gerar recursos do pré-sal, contudo, é circunstancialmente menor que o seu atual potencial político e eleitoral, e nisso reside o desespero da oposição. Há poucos dias, o governador de São Paulo, José Serra, do PSDB, chegou ao ponto de se adiantar ao tempo e anunciar futuras mudanças no marco regulatório do pré-sal, falando como presidente eleito, a um ano das eleições. O senador Álvaro Dias, tucano do Paraná, livre de todos os escrúpulos, admitiu estar atrás de uma empresa americana do setor petrolífero para juntar munição contra a Petrobras. No Senado Federal, um dia depois do anúncio oficial do pré-sal, um grupo de senadores se revezou na tribuna para choramingar contra o projeto eleitoral embutido no evento, quando não para agourar a possibilidade de todo esse petróleo ser usado, como quer Lula, para combater a pobreza no Brasil. E é nisso, no fim das contas, que reside a tristeza tucana e de seus companheiros de infortúnio.

Manter o pré-sal sob responsabilidade exclusiva da Petrobrás, como quer o governo, confere à opção uma cor, digamos, chavista, no melhor sentido da expressão, por deixar ao arbítrio do administrador da riqueza mineral em questão o poder de utilizá-la em programas voltados para o bem estar social, principalmente, nos setores de educação e saúde. Esse poder, que na verdade é do Estado, carrega consigo um óbvio e incalculável potencial eleitoral do qual Lula, que nunca foi bobo, não irá abrir mão. Não por outra razão, ao discursar sobre o tema, em cerimônia no Palácio do Planalto, o presidente deu uma cacetada nos tucanos ao lembrar ao distinto público da sanha do PSDB, durante o governo Fernando Henrique Cardoso, em privatizar a Petrobras (chamada pelos tucanos de “último dinossauro” estatal) e rebatizá-la de Petrobrax – uma designação tida como “mais internacional” por mentes notadamente sub-colonizadas.

A perspectiva de utilização de recursos petrolíferos em programas sociais, calcada no modelo adotado por Hugo Chávez, na Venezuela, é a fonte permanente de todo o terror da direita sulamericana, inclusive a brasileira, menos pelo fator ideológico embutido na discussão, mais pelo pavor de deixar nas mãos de um adversário tal instrumento poderoso de financiamento de novas e ainda mais ousadas políticas de distribuição de renda e assistência social. O interessante é que, se tudo der certo, o auge da exploração do pré-sal se dará em 2015, um ano depois, portanto, do mandato do sucessor de Lula.

Ou seja, o desespero da oposição está projetado para uma possível reeleição da ministra Dilma Rousseff, que sequer se sabe se será eleita.

Um escritor, um antídoto

Um escritor, um antídoto

Despedida

By José Saramago

Diz o refrão que não há bem que sempre dure nem mal que ature, o que vem assentar como uma luva no trabalho de escrita que acaba aqui e em quem o fez. Algo de bom se encontrará neste textos, e por eles, sem vaidade, me felicito, algo de mal terei feito noutros e por esse defeito me desculpo, mas só por não tê-los feito melhor, que diferentes, com perdão, não poderiam eles ser. Às despedidas sempre conveio que fossem breves. Não é isto uma ária de ópera para lhe meter agora um interminável adio, adio. Adeus, portanto. Até outro dia? Sinceramente, não creio. Comecei outro livro e quero dedicar-lhe todo o meu tempo. Já se verá porquê, se tudo correr bem. Entretanto, terão aí o “Caim”.

P. S – Pensando melhor, não há que ser tão radical. Se alguma vez sentir necessidade de comentar ou opinar sobre algo, virei bater à porta do Caderno, que é o lugar onde mais a gosto poderei expressar-me.