Futebol & Política


Quer moleza? Chama o Zagallo!

Por Luiz Carlos Azenha, do Vi o Mundo

O primeiro jogo do Brasil na Copa rendeu 45 pontos no Ibope à TV Globo. Contra a Costa do Marfim, num domingo, foram 41 pontos. A Bandeirantes marcou 10 pontos nas duas ocasiões. Do total de televisores ligados na hora do jogo, 87% estavam sintonizados nas partidas. É menos que no passado, ainda assim uma enormidade. É preciso levar em conta que hoje há outras opções para ver o jogo: emissoras a cabo e via satélite, por exemplo. Além disso, como muitas pessoas se reúnem para ver as partidas em bares ou em casas de parentes, fica difícil quantificar a audiência exata. Mas o fato é que a Globo ganha em qualquer circunstância: ganha na própria Globo, na SporTv, nas assinaturas de TV a cabo e assim por diante. Portanto, de fato, a Globo não tem nenhum motivo para torcer contra o Brasil. Quanto mais longe for o Brasil, maior o retorno e o lucro.

Onde é que Dunga prejudica a Globo, então? Nos dias e horários em que não há jogo. Para a emissora, a Copa do Mundo era no passado um evento importante para alavancar a audiência de toda a programação. Os jogadores da seleção brasileira costumavam desempenhar o papel de um cast alternativo. O acesso exclusivo aos jogadores e integrantes da comissão técnica garantia aos telejornais audiências bem acima da média durante a Copa do Mundo. A exclusividade no acesso à seleção teria um papel ainda mais crucial este ano. Hoje as pessoas se informam em tempo real através de emissoras de rádio ou da internet e não precisam mais ficar sujeitas à ditadura da programação para obter notícias somente depois das 8 da noite, no Jornal Nacional. A não ser que uma emissora tivesse o monopólio das notícias importantes sobre a seleção, o que deixou de acontecer.

É cedo, obviamente, para fazer qualquer tipo de análise da audiência de TV durante a Copa. Até agora parece não ter havido uma revolução nos números, a não ser durante os jogos do Brasil. Nos últimos dias a Record, por exemplo, tem perdido alguns pontos de audiência aqui ou ali, de acordo com a importância do jogo transmitido pelas rivais. Mas, curiosamente, o Jornal da Record, que compete diretamente com o Jornal Nacional, tem tido números consistentes com a audiência que tinha antes do evento.

Será que o Dunga pensou em prejudicar a Globo ao implantar a isonomia na seleção, ou seja, tratamento igual para iguais? Claro que não. O técnico da seleção brasileira sabe que um fator importante para motivar qualquer grupo é encontrar um ou mais “inimigos” externos. Sabe que é absolutamente essencial passar ao grupo a impressão de que não privilegia este ou aquele jogador, especialmente quando a exposição na TV, durante uma campanha vitoriosa, pode render contratos milionários. Sabe o quanto a ciumeira despertada por um relacionamento “especial” de um jogador com este ou aquele repórter, este ou aquele narrador,  pode custar caro ao grupo.

A diferença entre Dunga e a Globo encontra-se no calendário distinto pelo qual ambos se regem: a emissora precisa ganhar tudo agora, comercialmente tem pouco a faturar depois que o Brasil chegar à final; Dunga só irá ao banco descontar o cheque milionário se e quando garantir o título. A Globo precisa de um cast. Dunga precisa de um time. Minha sugestão à emissora do Jardim Botânico é que crie uma seleção cenográfica lá no Projac. Garanto que pouca gente vai notar a diferença.

Primeira divisão

Pouca coisa irrita mais a elite conservadora brasileira, sobretudo aquela instalada na velha mídia nacional, do que a naturalidade com o que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva utiliza metáforas do futebol para explicar desde a rotina administrativa do governo à política externa. Lula, corintiano doente, faz essa adequação de linguagem de forma cotidiana e continuada, alheio à crítica preconceituosa que a ela, invariavelmente, se segue, como rastro da cultura servil a padrões formais, típica da nossa intelectualidade colonizada. O que Lula faz, se faz, todos os dias, na intercomunicação humana do brasileiro médio, acostumado a usar os termos futebolísticos para ilustrar o conjunto de emoções, frustrações, alegrias e tristezas de seu dia-a-dia. Por essa razão, dizemos que fizemos um “golaço” quando acertamos na vida, levamos “uma bola nas costas” quando somos enganados ou, ao resolver algo no limite de nossas forças, para o bem ou para o mal, aos “45 minutos do segundo tempo”.

De uma forma ou de outra, todos os presidentes da história recente do Brasil, inclusive os generais da ditadura militar, tentaram se apropriar da capilaridade social do futebol e de sua linguagem extremamente popular, capaz de ser decodificada imediatamente por cidadãos de qualquer nível de escolaridade. Não é a toa que se tornou um dos recursos mais comuns das peças publicitárias e, por extensão, da agenda de treinamento de qualquer comunicador que se pretenda popular no Brasil. Nenhum, no entanto, teve tanto sucesso nessa empreitada como Lula, basicamente porque o ex-metalúrgico não precisou se adaptar à linguagem nem recorrer ao auxílio de marqueteiros. Oriundo da pobreza e da periferia social, Lula simplesmente abstraiu uma linguagem corrente a seu meio e ao da maioria da população, e, na Presidência, deu a ela um status de, digamos, primeira divisão.

Para tratar dessa ligação entre futebol e política, às vésperas da Copa do Mundo da África do Sul, fui convidado a participar do projeto Agenda 2010: Futebol e Política, um seminário patrocinado pelo Serviço Social do Comércio (Sesc) do Paraná e organizado pelo jornalista mineiro Rodrigo Merheb. Para analisar a ligação entre essas duas áreas, Merheb montou um conjunto de debates calcado na percepção de um fenômeno antigo, mas ainda a ser estudado com mais amplitude. “Não surpreende que governantes tenham percebido no fenômeno popular um filtro acessível de comunicação com as massas”, explica o jornalista. “Essa prática sempre existiu, mas foi elevada ao status de política de Estado durante a ditadura militar, desde as tentativas do Presidente Médici de capitalizar o sucesso dos campeões de 70 até o desenvolvimento de um controle metódico sobre a seleção brasileira, cuja face mais visível foi sua crescente militarização. O auge desse processo ocorreu durante a copa de 78, disputada em solo argentino onde também prosperava um violento regime de exceção, quando o comandante da CBD (Confederação Brasileira de Desportos) tinha patente de almirante e o treinador da seleção era um capitão do exército”, lembra.

Oficial de chancelaria do Itamaraty, Rodrigo Merheb é, para não fugir ao espírito do encontro, um craque em cultura popular, além de um especialista em história do rock’n’roll, no Brasil e no mundo. Ele está finalizando, agora, o seu primeiro livro, cujo título provisório é “Vibrações e Decadência – Uma história cultural e social do Rock (1965/1969)”. Como já li os originais, posso afirmar com total convicção: trata-se de um recorte histórico ajustado a uma impressionante narrativa, no melhor estilo de jornalismo literário, sobre a fase mais criativa e demolidora do rock mundial. É um texto leve e divertido, embora visivelmente escrito por alguém de grande conhecimento e cultura musical. Imperdível, tanto para iniciantes como para iniciados

O projeto Agenda 2010: Futebol e Política vai acontecer entre os dias 5 e 7 de maio (de quarta a sexta-feira), sempre a partir das 19 horas, no prédio do Sesc do Paço da Liberdade, em Curitiba, na Praça Generoso Marques, 189.

Além de mim, a CartaCapital será representada por um craque de verdade, o ex-jogador Sócrates, colunista da revista e parte indissociável da história e da glória do futebol brasileiro. Também por essa razão, será uma enorme honra participar desse evento em Curitiba. Quem estiver por lá, não deixe de aparecer.

Vejam a programação abaixo:

AGENDA 2010: FUTEBOL E POLÍTICA

Dia: 05 de maio, às 19h

 Imprensa, Copa do Mundo e Eleições

–         Mídias tradicionais e a Internet na cobertura das eleições

–         O reordenamento do acesso à informação

–         O papel histórico da imprensa como filtro mediador entre a seleção brasileira e a opinião pública, das demandas regionais ao monopólio das transmissões

–         Análise comparativa da cobertura das eleições e da Copa do Mundo

–         Significados e possíveis diálogos entre a mobilização política e a celebração popular.

Debatedores: 

Joaquim Toledo Junior

Mestre pelo departamento de Filosofia da Universidade de São Paulo, membro do Núcleo Direito e Democracia do Cebrap.

José Paulo Florenzano

Doutor em Ciências Sociais, Professor da PUC-SP, Núcleo de Estudos do Cotidiano e Cultura Urbana.

Leandro Fortes

Jornalista, professor e escritor. Repórter da revista CartaCapital em Brasília, trabalhou em diversos veículos, entre os quais O Estado de S.Paulo, O Globo, revista Época e Jornal do Brasil. É autor de Cayman: o dossiê do medo, Fragmentos da Grande Guerra e Jornalismo Investigativo, entre outros livros.

Mediador: jornalista Israel do Valle

Dia: 06 de maio, às 19h

 Arte e profissionalismo na era da imagem

–         Os limites do espetáculo no futebol empresarial

–         O Barcelona e a nova linguagem do futebol arte

–         Prosa e poesia do jogo, segundo Pasolini

–     O pragmatismo de Dunga contra as tentações de Ganso e Neymar

Debatedores:

Francisco Bosco

Escritor, letrista e ensaísta. É autor de Da Amizade, entre outros. Doutorando em Teoria Literária pela UFRJ e professor de Teoria Literária da Universidade Estácio de Sá.

José Miguel Wisnik

Ensaísta, músico e professor de Teoria Literária na USP. Publicou entre outros livros, O Coro dos Contrários – a música em torno da Semana de 22, Sem receita – ensaios e canções (Publifolha) e O som e o sentido.

 André Mendes Capraro

Doutor em História pela Universidade Federal do Paraná. Pesquisador do Núcleo de Estudos Futebol e Sociedade.

 Mediador: jornalista Lauro Mesquita

 Dia: 07 de maio, às 19h

 Futebol em tempo de ruptura: Democracia corintiana, seleção brasileira e abertura política

–         A militarização da seleção brasileira durante a ditadura

–         A experiência de vanguarda nas relações de trabalho no Corinthians

–         A Copa de 82 como embrião da campanha das diretas

–         O jogador e a militância política

–         A relevância da democracia corintiana no contexto do futebol atual

Debatedores:

Idelber Avelar

Mestre em literatura brasileira pela Universidade da Carolina do Norte e Ph.D. em literatura latino-americana por Duke University.

Marcos Guterman

Jornalista, escritor e historiador. Faz doutorado em história pela USP. Sua dissertação de mestrado abordou a relação do futebol com a política no governo Médici.

 Sócrates Brasileiro Sampaio de Oliveira

Ex-jogador Corinthians e da Seleção Brasileira de Futebol, líder da Democracia Corintiana e teve grande participação no movimento das “Diretas Já”. Formado em Medicina. Atualmente é articulista da Revista CartaCapital.  

Mediador: jornalista Rodrigo Merheb

 Dia: 7 de maio, 21h

Vai-e-vem de lances: Música e Futebol

Uma conversa musicada e afinada, sobre música e futebol, entre José Miguel Wisnik, ensaísta, músico e professor de Teoria Literária na USP e Sócrates, ex-jogador Corinthians, líder da Democracia Corintiana. Médico e articulista da Revista CartaCapital.