março 2011


Por hoje é só, pessoal. Na segunda, reunião de pauta.

Entre todas as bizarrices expostas pelo WikiLeaks, a mais interessante é a revelação, sem cerimônias, de que a Embaixada dos Estados Unidos mantinha (mantém?) uma verdadeira sucursal informal no Brasil, na qual se revezavam jornalistas (de uma só tendência, é verdade), a elaborar análises políticas – todas furadas, diga-se de passagem.

Na redação da embaixada brilharam, primeiro, os colunistas Diogo Mainardi, da Veja, e Merval Pereira, de O Globo. Segundo despacho de Arturo Valenzuela, secretário adjunto de Estado para Assuntos do Hemisfério Ocidental, em 2009, o “renomado colunista político” Mainardi, em almoço privado (?), disse que uma coluna propondo que a ex-candidata presidencial do Partido Verde (PV) e ex-ministra do Meio Ambiente Marina Silva se tornasse candidata a vice do tucano José Serra havia nascido “de uma longa conversa” entre os dois, Serra e Mainardi, na qual o ex-governador de São Paulo afirmara que Marina seria sua “companheira de chapa dos sonhos”. De acordo com Valenzuela, Serra alinhou naquela conversa com Mainardi as mesmas vantagens que o colunista, mais tarde, iria listar em sua coluna: a história de vida e as “credenciais esquerdistas impecáveis” de Marina poderiam bater o apelo pessoal de Lula aos brasileiros pobres e colocar Dilma Rousseff em desvantagem com a esquerda. Ao mesmo tempo, a vice verde ajudaria Serra a “mitigar” sua associação com o governo de Fernando Henrique Cardoso. Mainardi ainda preconizou que, mesmo sem sair como vice, Marina poderia apoiar Serra num segundo turno contra Dilma. Também apostou que Aécio Neves iria se juntar à chapa de Serra. Um profeta, como se vê.

A mesma lengalenga Arturo Valenzuela ouviu do colunista Merval Pereira, que rememorou uma conversa tida entre ele, Merval, e Aécio Neves, um dia antes do jornalista se reportar à Embaixada dos EUA, em 21 de janeiro de 2010. Ou seja, informação quentíssima! A Merval, informou Valenzuela à Casa Branca, Aécio Neves teria dito estar “firmemente compromissado” em ajudar Serra de qualquer maneira, inclusive se juntando à chapa. Uma chapa Serra-Neves, opinou Merval Pereira ao interlocutor americano, venceria fácil. “(Merval) Pereira pessoalmente acredita que não só Neves concorreria com Serra, mas que Marina também apoiaria Serra em um segundo turno”. Outro profeta.

Agora, sabemos pelo WikiLeaks que Humberto Saccomandi, editor de notícias internacionais do jornal Valor Econômico, acompanhado do analista político Rafael Cortez, da Tendências Consultoria, também foram convocados pela sucursal da Embaixada a analisar a candidatura de Dilma, mas estes acertaram: a subida de Dilma Rousseff nas pesquisas iria favorecê-la no congresso nacional do PT, no fim de fevereiro de 2010, onde se esperava que ela anunciasse sua candidatura oficialmente.

Classificados de “críticos mais duros de Rousseff”, os jornalistas William Waack, da TV Globo, e Hélio Gurovitz, da revista Época, também foram à Embaixada dos Estados Unidos dar pitaco, mas em clima de torcida organizada pró-Serra. Waack descreveu para o Consulado Geral, em São Paulo, sua ida a um fórum de negócios do qual José Serra, Dilma Rousseff, Aécio Neves e Ciro Gomes tinham participado. A análise, não fosse surreal, é pouco mais do que rasa. “De acordo com Waack, Gomes foi o mais forte no geral, Neves o mais carismático, Serra desligado, mas claramente competente (grifo meu), e Rousseff, a menos coerente”, escreveu, à Casa Branca, o embaixador Thomas Shannon, editor-chefe da sucursal. Crítica duríssima, essa de Waack.

Helio Gurovitz, diretor da Época, foi mais adiante ao se reportar à Embaixada do EUA. Descreveu o Brasil como similar ao Chile (onde a esquerdista Michelle Bachelet perdeu a eleição para o direitista Sebastián Piñera). Argumentou que a “base social do país” se desenvolveu de maneira que esta “base” – seja lá o que for isso, o povo é que não era – preferiria alternar partidos no poder para manter continuidade (sic), em vez de manter um partido no poder no longo prazo, “com isso provocando uma guinada na direção daquele partido no espectro político”. O embaixador, creio, não entendeu nada. Mas registrou, por via das dúvidas.

Com analistas assim, não é a toa que o governo Obama se encontra na situação que está.

Assunto extremamente relevante!

Foram muitas as reações ao meu post anterior, “Dilma na cova dos leões”, sobre a presença da presidenta (lá, auto-apresentada como “presidente”) na festa de 90 anos da Folha de S.Paulo. A maioria concordou comigo, pelo menos na minha caixa de mensagem e na minha coluna eletrônica na CartaCapital. Quem foi contra, ou por convicção, ou por militância pura e simples, usou basicamente o argumento de que a presidenta deu um “tapa de luva de pelica” na mídia oposicionista como parte de uma estratégia política muito sofisticada. Balela. Em minha opinião, e de muitos outros, ela foi ingênua, equivocada e, basicamente, mal assessorada. Tem muito tempo, contudo, para corrigir rumos.

A velha mídia brasileira é de direita e reacionária, tanto politicamente como nos modos. Não aceitou o operário semi-letrado Lula, obrigado a se retirar de um encontro na sede da Folha de S.Paulo, durante a campanha eleitoral de 2002, por assim ter sido chamado, em outros termos, pelo atual dono (na época, filho do dono) do jornal. Negou-se as ser humilhado por não saber falar inglês. A mesma Folha não aceita sua sucessora, poliglota, mas mulher e de esquerda, a quem já tratou de vadia, vagabunda e terrorista, com direito à publicação, na primeira página, de uma falsa ficha policial forjada por grupos de militares, viúvas da ditadura, na internet.

No começo do primeiro governo Lula, quando a velha mídia ainda sonhava com o “Proer da imprensa”, ou seja, com uma política de generosa distribuição de verbas do BNDES para estancar a sangria financeira de diversos grupos de comunicação, como FHC fez com os bancos privados, tudo era lindo e maravilhoso. Mas, aí, a grana não veio e, para piorar, a Polícia Federal do Dr. Paulo Lacerda, que chegou a ganhar uma capa da Veja com ares de esquadrão Power Ranger, começou a fuçar os crimes de colarinho branco, invadir a Daslu e prender o banqueiro Daniel Dantas. A partir de 2005, então, Lula passou a ser o governo do “mensalão” e, daí em diante, foi fustigado diariamente, de forma vil e, não raramente, mentirosa, de tal maneira que a boa e necessária crítica ao governo se perdeu na ignomínia das redações. O Dr. Lacerda, de arauto de uma polícia republicana exemplar, por exemplo, passou a dono de conta clandestina em paraíso fiscal (notícia falsa passada à Veja por Daniel Dantas) e grampeador do ministro Gilmar Mendes (notícia falsa passada à Veja, imagina-se por quem).

É nesse covil que Dilma se meteu, mas seus admiradores (nem todos, felizmente) teimaram em interpretar como um tapa de luva de pelica. Só se foi nos olhos do eleitor.

Voltei ao assunto, na verdade, porque entre as reações ao artigo, a mais engraçada foi, justamente, na Folha de S.Paulo, em um artigo obscuro de um articulista de quem eu nunca tinha ouvido falar. Ele se chama Antonio Athayde e é consultor da Associação Nacional de Jornais (ANJ). Foi, também, executivo sênior (?) da Rede Globo, da Rede Bandeirantes e do SBT, Além de ter trabalhado para o Grupo Abril, que edita a revista Veja. Ou seja, o cara não é fraco não.

Soube do artigo, intitulado “Como tornar a irrelevância relevante”, por meio de Conceição Oliveira, do excelente blog “Maria Frô”, ao citar um post do meu amigo e cidadão sempre vigilante Eduardo Guimarães, do Blog da Cidadania, que não é jornalista, mas faz inveja a muitos colegas de profissão. Eu, inclusive, por ser defensor do diploma, costumo escondê-lo das visitas sempre que posso.

No artigo em questão, Athayde monta uma rápida e sinuosa tese sobre o Google News, o serviço de notícias do Google, por ele considerado uma espécie de conspiração robótica a serviço da irrelevância. No caso, os milhares de sites, blogs e jornalistas independentes que não fazem parte da ANJ nem podem pagar pela consultoria de um executivo sênior (?). Por isso, o Google News, esse serviço irrelevante de uma empresa que vale 125 bilhões de dólares, teria sido montado, pela lógica de Athayde, para evitar a disseminação das notícias realmente relevantes, ou seja, as que são veiculadas pela velha mídia, da qual o articulista foi um orgulhoso executivo sênior (?) e a qual, hoje, representa na ANJ, órgão oficial da oposição, segundo a própria presidente da entidade, Judith Brito – aliás, executiva (sênior?) da Folha de S.Paulo.

(Parênteses necessários: esse negócio de “executivo sênior” é a mesma coisa que “repórter especial”, ou seja, uma forma de demonstrar que, embora você seja só repórter mesmo, ganha mais que os outros, na maioria das vezes, porque é mais velho ou porque presta mais serviços, digamos, relevantes)

De volta ao artigo de Athayde. Lá pelas tantas, para justificar a tese, cita alguns exemplos de irrelevância por ele detectados, entre os quais, as notícias sobre os 90 anos da Folha de S.Paulo. Em primeiro lugar, no Google News, aparece o quê? Isso mesmo, o meu post intitulado “Dilma na cova dos leões”, o único, entre os citados por Athayde ao longo do texto, que vem sem crédito – nem do autor, nem do blog, nem da revista onde eu trabalho.

Assim escreveu o ex-executivo sênior (?) Antonio Atahyde:

Quero saber a situação da Líbia; são 15:30 do dia 23/2, e digito “SITUAÇÃO LÍBIA” no Google News. O resultado: “Conselho de Direitos Humanos da ONU aborda situação da Líbia (Angola Press – há sete horas)”. Interesso-me pela Itália: digito “PROCESSO BERLUSCONI” e meu resultado é “A “batalha final” contra Berlsuconi (PlanetaOsasco.com – há 13 horas”).
E sobre os 90 anos da Folha?
“Dilma na cova dos leões; aniversário do jornal “Folha” (PlanetaOsasco.com – há 3 horas)”.

Depois, o articulista conclui:

Os indianos que definem a “relevância” de notícias não sabem o que realmente interessa a um habitante da cidade de São Paulo, que gosta de ler a Folha e “O Estado de S. Paulo”.

Só por curiosidade, dei um Google para saber de que indianos Antonio Atahyde estava falando. Certamente não era dos criadores do Google. Um deles, Sergey Brin, é russo de nascimento, mas emigrou para os Estados Unidos aos seis anos de idade. O outro, Larry Page, é americano, de Michigan. Vai ver os robôs é que são indianos, sei lá, não tive paciência para me aprofundar nessa pesquisa.

No fim as contas, só tenho um pedido a Antonio Athayde, em meu nome, em nome do “Brasília, eu vi” e em nome da CartaCapital: para, no mínimo, termos o mesmo tratamento dispensado ao “PlanetaOsasco.com” e à “Angola Press”, pô!