março 2010


Caminhando contra o vento, sem lenço nem documento

Parem as rotativas! A nova versão da PM de São Paulo para a presença do policial barbado na manifestação dos professores supera todas as expectativas. Questionada pela repórter Conceição Lemes, do Vio o Mundo, sobre a antológica foto de Clayton de Souza, da Agência Estado, a assessoria de imprensa da PM paulista conseguiu ultrapassar a tênue linha que separa o deboche do escárnio:

– Ele estava no local, não disse o que estava fazendo.

Sensacional. Mas tem mais. Quando Conceição quis saber o nome do cabra, a assessoria da PM saiu-se com essa:

– Por solicitação do policial, que pediu para ter o seu nome preservado, a PM não irá divulgar o nome dele.

Finalmente, um herói de verdade. Humilde, o jovem de barba não quer notoriedade nem reconhecimento. Quer apenas perpetuar sua imagem de homem do povo, a carregar uma colega ferida de guerra. Praticamente um zorro!

Leiam as reportagens de Conceição Lemes (há repórteres em São Paulo!) aqui e aqui.

O passageiro da agonia

A matéria abaixo, recém colocada no ar pelo Terra Magazine revela que o comando da Polícia Militar de São Paulo, sob as ordens do governador José Serra, do PSDB, não nutre a mais pálida consideração pela inteligência alheia. A nova versão de que o sujeito barbado flagrado pelo fotógrafo Clayton de Souza, da Agência Estado, seria um policial militar que estava “passando” pela maifestação é um acinte, para se dizer o mínimo. Esse tipo de coisa, aliás, é uma das mais nefastas heranças da ditadura militar dentro da PM. O desprezo total pelo bom senso e pela lógica em nome do cumprimento irrestrito de uma ordem, ainda que uma ordem espúria. Lembra, de muitas formas, o desastre do Riocentro.

Então, a PM de São Paulo quer combinar o seguinte:

Fulano, esse jovem da foto, policial militar de folga há muitos dias (daí a barba), mortificado pelo tédio, aproveitou o dia livre para tomar um pouco de ar e se viu, vejam só, bem no lugar onde colegas enviados pelo governador  desciam pauladas e gás pimenta em professores em greve. Também por obra do destino, ele estava bem perto de uma colega de farda (mas esta, de fato, fardada) que levou uma paulada no rosto. Depois, foi o que todo mundo viu: um herói anônimo que chegou a ser tomado por um manifestante, inclusive por este blogueiro, por conta do primeiro despacho feito a respeito pela Agência Estado. A PM, contudo, apressou-se em dizer que a jovem policial havia sido resgatada por um outro PM, não identificado. Incrível, sabiam que era um PM, mas não eram capaz de identificá-lo. Devem ter deduzido pela barba.

Foi um tiro no pé. Agora, o comando da PM, para manter no anonimato um provável infiltrado, demora três dias para bolar essa sensacional versão de que o nosso herói barbado estava ali de passagem. É mais trágico do que cômico.

Abaixo, a ótima matéria do Terra Magazine, revista eletrônica sob a batuta de Bob Fernandes. A certa altura, a assessoria de imprensa se sai com essa: ” O comandante falou que era pra gente informar só isso, mesmo”.

Não é demais?

PM: Policial à paisana que socorreu colega estava “passando”

Carolina Oms
Especial para Terra Magazine

 A Polícia Militar de São Paulo mudou de versão nesta segunda e disse a Terra Magazine que o policial militar à paisana que socorreu sua colega ferida em manifestação dos professores da rede pública estadual, em São Paulo, “estava passando por lá”.

A informação, fornecida depois que Terra Magazine enviou à assessoria da PM um email solicitando esclarecimentos sobre a identidade e função do policial à paisana, contraria posicionamento anterior, de que o PM não-identificado “era um dos policiais da região, que estavam empenhados na operação”.

A assessoria da PM justificou a falta de informações de duas maneiras:

– Não vamos dar mais informações sobre o policial porque ele mesmo não quer ser identificado.

E, diante dos questionamentos sobre a barba do PM, incomum em policiais militares, exceto os do Serviço Reservado, limitou-se a declarar:

– O comandante falou que era pra gente informar só isso, mesmo.

Na última sexta, 26, professores da rede estadual paulista entraram em confronto com a polícia durante uma manifestação realizada nos arredores do Palácio Bandeirantes, sede do governo paulista. De acordo com a PM, os manifestantes teriam jogado pedras contra a PM, que revidou com a Tropa de Choque.

Uma PM foi ferida por uma paulada no rosto – segundo nota oficial da Polícia Militar publicada dia 29 -, durante manifestação dos professores em São Paulo e foi socorrida por um policial militar à paisana. A informação é da mesma nota oficial da PM.

PM de barba? Entre grevistas?

Muito ainda se falará dessa foto de Clayton de Souza, da Agência Estado, por tudo que ela significa e dignifica, apesar do imenso paradoxo que encerra. A insolvência moral da política paulista gerou esse instantâneo estupendo, repleto de um simbolismo extremamente caro à natureza humana, cheio de amor e dor. Este professor  POLICIAL MILITAR  BARBADO A PAISANA INFILTRADO ENTRE OS MANIFESTANTES que carrega o PM ferido  a PM ferida é um quadro da arte absurda em que se transformou um governo sustentado artificialmente pela mídia e por coronéis do capital. É um mural multifacetado de significados, tudo resumido numa imagem inesquecível eternizada por um fotojornalista num momento solitário de glória. Ao desprezar o movimento grevista dos professores, ao debochar dos movimentos sociais e autorizar sua polícia a descer o cacete no corpo docente, José Serra conseguiu produzir, ao mesmo tempo, uma obra prima fotográfica, uma elegia à solidariedade humana e uma peça de campanha para Dilma Rousseff.

Inesquecível, Serra, inesquecível.

Em tempo: agora que a PM de São Paulo afirma que o homem da foto é um policial militar, é de se esperar que seu nome e função dentro da corporação sejam também revelados. Senão, a emenda terá saído muito, mas muito pior que o soneto.

A Justiça, dois HCs depois

FOLHA DEFENDE GILMAR MENDES

Do blog de Olímpio Cruz Neto

Em editorial deste sábado, a Folha faz uma defesa da atuação – o termo é este mesmo! – do presidente do Supremo Tribunal Federal, o douto Gilmar Mendes. O baluarte do Judiciário está na estratosfera. Nenhuma linha no editorial das palavras de repúdio lançadas por procuradores, juízes e a PF por conta de sua entrevista de segunda-feira à mesma Folha. Nessa entrevista, num momento de delírio lisérgico, o douto Gilmar Mendes volta à tese da existência de um conluio entre o juiz Fausto de Sanctis, o Ministério Público Federal e a Polícia Federal no caso Daniel Dantas, o empresário condenado pela Justiça Federal a dez anos de prisão, em regime fechado, por corrupção ativa e suborno. Nenhuma palavra do jornal sobre a inexistência do famoso grampo de sua suposta conversa com o senador Demóstenes Torres (Demo-GO), ou sobre a vida dupla de Gilmar Mendes como empresário do ramo da educação. Afinal, Gilmar é sócio-proprietário de duas instituições de ensino – o IDP, em Brasília, e a Faculdade de Direito, em Diamantino…

O IDP tem recebido recursos de órgãos públicos, contratado sem licitação por conta “notória especialidade” de seus dirigentes, que vêm ministrando aulas e dando cursos a funcionários do governo. As polêmicas envolvendo o douto Gilmar Mendes são tantas que dariam um bom livro. Desde o início de sua vida profissional como procurador da República – ele detesta que lembrem desse seu passado –, passando pelo cargo de consultor jurídico da Casa Civil no governo Collor e pela Advocacia Geral da União – quando costumava tratar o STF que ele agora tanto defende com desrespeito – no governo Fernando Henrique Cardoso. Ele foi longe! Ainda bem que restam menos de 30 dias para que essa figura controversa – para dizer o mínimo – deixe os cargos de presidente do STF e do Conselho Nacional de Justiça. Ainda assim, continuará na Corte, sempre colocando seus serviços públicos a bem da sociedade brasileira. O grande jurista de Diamantino! Orgulho do Mato Grosso e do Brasil!

Já vai tarde!!!

Para ler a íntegra do post de Olímpio, clique aqui.

Quase todos perdidos de armas nas mãos

Muito ainda se falará dessa foto de Clayton de Souza, da Agência Estado, por tudo que ela significa e dignifica, apesar do imenso paradoxo que encerra. A insolvência moral da política paulista gerou esse instantâneo estupendo, repleto de um simbolismo extremamente caro à natureza humana, cheio de amor e dor. Este professor que carrega o PM ferido é um quadro da arte absurda em que se transformou um governo sustentado artificialmente pela mídia e por coronéis do capital. É um mural multifacetado de significados, tudo resumido numa imagem inesquecível eternizada por um fotojornalista num momento solitário de glória. Ao desprezar o movimento grevista dos professores, ao debochar dos movimentos sociais e autorizar sua polícia a descer o cacete no corpo docente, José Serra conseguiu produzir, ao mesmo tempo, uma obra prima fotográfica, uma elegia à solidariedade humana e uma peça de campanha para Dilma Rousseff.

Inesquecível, Serra, inesquecível.

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