março 2010


No flagrante, a indolente negra Anastácia, que não entendia a importância do estupro consensual para a miscigenação da civilização brasileira

A direção da Folha de S.Paulo, simplesmente, autorizou a um elemento estranho à redação (mas não aos diretores), o sociólogo Demétrio Magnoli, a chamar de “delinquentes” dois repórteres do jornal, autores de matéria sobre a singular visão do senador Demóstenes Torres (DEM-GO) da miscigenação racial no Brasil. Vocês, não sei, mas eu nunca vi isso na minha vida, nesses 24 anos de profissão. Nunca. Por tabela, também o colunista Elio Gaspari, que desceu a lenha no malfadado discurso racista de Demóstenes Torres, acabou no balaio da delinquencia jornalística montado por Magnoli.

Das duas uma: ou a Folha dá direito de resposta aos repórteres insultados (Laura Capiglione e Lucas Ferraz), como, imagino, deve prever o seu completíssimo manual de redação, ou encerra as atividades. Isso porque Magnoli, embora frequente os saraus do Instituto Milleniun, não entende absolutamente nada de jornalismo e confundiu reportagem com opinião. A matéria de Laura e Lucas nada tem de ideológica, nem muito menos é resultado de “jornalismo engajado” (contra o DEM, na Folha??). A impressão que se tem é que houve falha nos filtros internos da redação e deixaram passar, por descuido ou negligência, uma matéria cujas conseqüências aí estão: o senador Torres, sujeito oculto da farsa do grampo montada em consórcio entre a Veja e o STF, virou, também, o símbolo de um revisionismo histórico grotesco, no qual se estabelece como consensual o estupro de mulheres negras nas senzalas da Colônia e do Império do Brasil.

A reação interna à repercussão de uma matéria elaborada por dois repórteres da sucursal de Brasília, terceirizada por Demétrio Magnoli, é emblemática (e covarde), mas não diz respeito somente à Folha de S.Paulo. O artigo “Jornalismo delinquente”, publicado na edição de hoje (9 de março de 2010), na página de opinião do jornal, nada tem a ver com políticas de pluralidade de opiniões, mas com intimidação pura e simples voltada para o enquadramento de repórteres e editores, e não só da Folha, para os tempos de guerra que se aproximam. A recusa de Aécio Neves em ser vice de José Serra deverá jogar o DEM, outra vez, no vácuo dos tucanos, a reviver a dobradinha iniciada entre Fernando Henrique Cardoso e o PFL, de triste lembrança. O imenso mal estar causado pela fala de Demóstenes Torres na tribuna do Senado Federal, resultado do trabalho rotineiro de dois repórteres, acabou interpretado como inaceitável fogo amigo. Capaz, inclusive, agora, de a dupla de jornalistas correr perigo de empregabilidade, para usar um termo caro à equipe econômica tucana dos tempos de FHC.

Demétrio Magnoli, impunemente, chama a reportagem da Folha de S.Paulo de “panfleto disfarçado de reportagem”, afirmação que jamais faria, e muito menos a publicaria, sem autorização da direção do jornal, precedida de uma avaliação editorial e política bastante criteriosa. O fato de se ter permitido a Magnoli, um dos arautos da tese conceitualmente criminosa de que não há racismo no Brasil, insultar dois repórteres e o principal colunista da Folha, em espaço próprio dentro de uma edição do jornal, deixa a todos – jornalistas e leitores – perplexos com os rumos finais da velha mídia e de seu inexorável suicídio editorial em nome de uma vingança ideológica, ora baseada em doutrina, ora em puro estado de ódio racial e de classe.

 

Xifópagos

Graças a Joaquim Roriz, candidato ao governo do Distrito Federal pelo PSC, à rotina de escândalos políticos de Brasília, simbolizada pela prisão do governador José Roberto Arruda (ex-DEM), agregou-se o deboche. Desde o dia 23 de fevereiro, Roriz aparece em rápidas inserções do programa eleitoral do PSC, do qual é presidente de honra, para demonstrar uma inusitada indignação com o esquema de corrupção montado por Arruda e aliados no DF. As falas, visivelmente editadas, tentam compensar a incapacidade de articulação narrativa de Roriz, mas o elemento ofensivo do discurso não está na forma, mas no conteúdo. Roriz, pai de todos os escândalos do DF, nos últimos 20 anos, se diz indignado com o que vê. E não se trata de uma piada.

“É tão vergonhoso, é tão escandaloso e eu fico numa indignação eu fico numa vergonha meu Deus do céu, como pode chegar nisso aí?”, pergunta Roriz, aos céus. “Mas, por outro lado, eu vejo firmeza na Justiça. A Justiça vai punir, a Justiça vai fazer como ela está fazendo. Então eu fico, por um lado eu fico com profunda decepção, e, por outro, cheio de esperança que a Justiça cumpra seu dever”, ensina o probo ex-senador do PMDB que, ocasionalmente, renunciou para não ser cassado por corrupção.

Joaquim Roriz, goiano de Luziânia, governou o Distrito Federal por quatro vezes, a partir de 1988, indicado bionicamente pelo então presidente José Sarney. Desde então, dedicou-se à construção física de currais eleitorais em forma de imensos e miseráveis assentamentos em torno da capital federal, aos quais se vinculou por meio de distribuição de lotes e por um discurso político populista e messiânico, deliberadamente repleto de erros de português e de citações religiosas. Ocorre que, em nome de Deus, Roriz já fez o diabo.

Contra o ex-governador há o registro de seis notícias crimes e cinco inquéritos no Superior Tribunal de Justiça (STJ). Trata-se de um rol que inclui desde racismo (chamou um eleitor de “crioulo petista, durante um comício) a improbidade administrativa, falsidade ideológica e crimes contra a fé pública. Mas, enquanto permaneceu no mundinho quadrado do Distrito Federal, Roriz sempre conseguiu se safar, de um jeito ou de outro, ora debruçado sobre genuflexórios das igrejas locais, ora derramado em lágrimas entre cabos eleitorais mantidos nas monumentais favelas que ajudou a criar em torno de Brasília.

Em 2006, Joaquim Roriz, então no PMDB, decidiu se candidatar ao Senado Federal. Embora tivesse uma vice candidata a sua sucessão, Maria de Lourdes Abadia (PSDB), a quem já chamou de “vadia” em um comício, em 1994, Roriz apoiou o candidato do PFL, hoje DEM, José Roberto Arruda. Foi dessa simbiose, iniciada anos antes, quando Arruda foi secretário de Obras de Roriz, que nasceu o escândalo apelidado de “mensalão do DEM”. Qualquer outra tese sobre o tema é escapista. Não há nada de rigorosamente novo no escândalo de corrupção do DF que não tenha se originado das práticas e das gentes dos governos Roriz. Escândalo que o ex-governador acompanhou de longe, quieto, porque, ao botar o nariz para fora da política local, ele só conseguiu ficar cinco meses no Senado, do qual se afastou, em julho de 2007.

As circunstâncias políticas da renúncia de Roriz são emblemáticas, sobretudo quando se ouve, hoje, o ex-governador botar tanta fé e esperança na força da Justiça. Em 2006, Roriz foi flagrado em escutas telefônicas da Polícia Civil do DF quando negociava a partilha de um cheque de 2,2 milhões de reais com o então presidente do Banco Regional de Brasília (BRB), Tarcísio Franklin de Moura. A justificativa de Roriz para o flagrante adiantava o clima de deboche que viria. Segundo o ex-governador, o dinheiro era para pagar a compra de uma bezerra premiada do empresário Nenê Constantino, dono de uma empresa de transporte urbano do DF e da Gol Linhas Aéreas.

Depois da renúncia, a Polícia Civil do DF passou a trabalhar com a possibilidade de o dinheiro de Roriz ter sido oriundo de uma propina milionária por conta da mudança de destinação de um terreno que pertencia a um aliado, comprado por uma das empresas de Constantino. O suplente de Roriz e seu sucessor no Senado, Gim Argello (PTB), é apontado como intermediador do negócio.

A nova ofensiva política de Joaquim Roriz, baseada numa peça de marketing que afronta à inteligência do eleitor do DF, é uma aposta decisiva numa amnésia ainda a ser combinada, não se sabe a que preço, com a mídia local. Isso porque basta passar os olhos pelos nomes citados na Operação Caixa de Pandora, da Polícia Federal, para perceber, de imediato, a ligação visceral entre as estrelas dos vídeos de corrupção explícita que derrubaram Arruda e os governos comandados por Joaquim Roriz.

A deputada Eurides Brito (PMDB), flagrada enquanto enchia uma bolsa de couro com maços de notas de cem reais, foi secretária de Educação e, depois, líder do governo Roriz. Cargo, aliás, que viria a desempenhar, também, no governo Arruda. Em texto escrito em um blog pessoal, na semana passada, ela acusou o ex-governador de ter ordenado a ela botar a mão na dinheirama. Seria, segunda a deputada, para garantir apoio a José Roberto Arruda, nas eleições de 2006. “Foi um dinheiro que o Roriz mandou eu receber”, afirma Eurides.

O deputado Júnior Brunelli, do PSC, era o parlamentar que organizava o apoio a Roriz entre as lideranças evangélicas do DF. Entre 2005 e 2006, foi presidente da Comissão de Constituição de Justiça da Câmara Legislativa, cargo-chave para as operações de Roriz no governo, sobretudo no que diz respeito a pareceres para liberação de créditos suplementares para empresas, segundo a Operação Caixa de Pandora, vinculadas ao esquema de corrupção do DEM. Brunelli, que renunciou ao mandato para não ser cassado, ficou famoso por comandar a famosa “oração da propina”, proferida em honra ao corruptor Durval Barbosa.

O deputado Leonardo Prudente (ex-DEM), ex-presidente da Câmara Legislativa, mais conhecido pela alcunha de “deputado da meia”, também presidiu a Comissão de Economia, Orçamento e Finanças da Casa, durante o governo Roriz. Também graças a ele, os créditos suplementares da Codeplan eram resolvidos em menos de 72 horas. Prudente também renunciou para não ser cassado.

Welligton Moraes, dito jornalista, coordenava o milionário setor de publicidade de Joaquim Roriz, mesma função que passou a ocupar no governo Arruda, cedido a título de gentileza de um aliado para outro Por ora, Moraes está no presídio da Papuda, em Brasília, acusado de coordenar uma ação para subornar uma das testemunhas do esquema de corrupção do DF.

A simples perspectiva de que Joaquim Roriz possa ser eleito, novamente, governador do Distrito federal, deve ser encarada como sintoma de uma grave doença de caráter do eleitor do DF. Um fenômeno a ser discutido como questão prioritária de educação e de formação cultural, essa sim, a ser cuidadosamente pensada como intervenção federal. A posição de Roriz nas pesquisas revela, até aqui, uma inclinação corrupta dos eleitores do DF, inclusive da abastada classe média de Brasília (que nada tem a ver com a dura realidade das cidades-satélites).

Um pêndulo que oscila entre a ignorância e a má fé, sustentado por uma sinistra certeza de que, por aqui, ladrão não é quem rouba, mas só quem é pego roubando.

De olho na mira, mas o alvo é ele

Pré-candidato à Presidência da República pelo PMDB, o governador do Paraná, Roberto Requião, sabe que não tem chance alguma de ser homologado como tal, em junho, na convenção nacional do partido. Requião se lançou nessa empreitada para fazer barulho e expor a contradição interna da sigla, distante, anos-luz, dos nortes democráticos traçados na trajetória do antigo MDB de guerra. O paradoxo do PMDB, no entanto, nada tem a ver com as vontades de Requião, esta legítima sob qualquer análise, mas reside no fato de que enquanto o governador se pretende presidente da República, o presidente do partido e da Câmara dos Deputados, o paulista Michel Temer, pretende-se vice. Ou falso vice, na visão de Requião.

“O que Temer quer ser é presidente mesmo”, brada Requião, entre irônico e indignado, com voz de trovão, empenhado em revelar intenções supostamente escondidas pelo sinistro semblante do presidente do PMDB. A lógica do governador paranaense faz sentido, embora tenha um quê de teoria conspiratória: caso seja eleita, a ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff (“uma gerentona”, segundo ele), teria enormes dificuldades de se relacionar com o Congresso Nacional, o que a tornaria refém do habilidoso Temer, raposa velha do Parlamento, ambiente pelo qual transita, há mais de três décadas, com grande desenvoltura. Assim, do Palácio do Jaburu, aprazível, mas anódina, residência oficial dos vices, Michel Temer conseguiria o que ninguém do PMDB conseguiu, desde o governo José Sarney, ou seja, mandar de fato no Executivo federal.

O discurso político de Roberto Requião é entrecortado, aqui e ali, por certo ressentimento orgânico, uma crescente desilusão com a história do PMDB e seu papel institucional periférico, embora relevante, nos caminhos dos governos que sempre apóia. No Brasil, como se sabe, é impossível governar sem o apoio do PMDB, dono de uma avassaladora máquina de votos espraiada por centenas de prefeituras municipais, câmaras de vereadores, assembléias legislativas, além da Câmara dos Deputados e do Senado Federal. Um enorme “exército sem general”, como bem define o jornalista Mauro Santayana, uma tropa muitíssimo adestrada no terreno do fisiologismo e do clientelismo, mas carente de um líder verdadeiro desde as mortes de Tancredo Neves e Ulysses Guimarães, ainda no alvorecer da chamada Nova República.

Ao colocar o próprio nome como alternativa eleitoral à Presidência da República, em 2010, Roberto Requião se insinua como candidato, também, a general dessa deserdada legião peemedebista, a conduzir o partido para além da posição subalterna em que tem se submetido desde que fez uma opção preferencial por cargos em detrimento de um projeto real de poder. Sabe, como todos sabem, que a briga do PMDB não será por uma candidatura própria, mas pela possibilidade de Michel Temer conseguir a boquinha de vice, embora este tenha, antes, que superar a ojeriza que a maior parte do PT tem pelo presidente da Câmara, apesar dos sorrisos pragmáticos que o presidente Lula e a candidata Dilma lhe dirijam, vez em quando, não sem algum constrangimento.

Requião ressente-se, ainda, do círculo de fogo aceso pela mídia em volta de si. Nos sete anos à frente do governo do Paraná, ele secou a fonte de financiamento público da imprensa e não colocou um tostão de publicidade na mídia local. Trata-se de uma mudança de rumo considerável, haja vista seu antecessor, Jaime Lerner, do DEM, ter despejado algo em torno de 2 bilhões de reais no setor, nos dois mandatos em que esteve à frente do governo. Em troca, Requião passou a levar pancada diariamente da mídia – paranaense e nacional –, que não lhe dá trégua nem voz, isso quando não opta por silenciar sobre toda e qualquer ação de governo que possa, ainda que indiretamente, render dividendos políticos ao governador. Isso em se tratando de uma gestão que mantém o maior salário mínimo regional do país, isentou de impostos todas as pequenas empresas do estado e mantém uma malha rodoviária totalmente liberta de pedágios. O governador, contudo, não foge dessa briga, pelo contrário, a alimenta, como quando espinafrou cada repórter presente na primeira coletiva que deu como governador reeleito, em 2006. Sem falar na postura política explícita, desavergonhadamente de esquerda, a ponto de classificar – para horror de certos editorialistas da mídia nativa – que o MST é “uma dádiva de Deus”.

É quase certo, portanto, que Roberto Requião acabe por levar seu estilo intempestivo e turrão de volta ao Senado Federal, onde deverá insistir na tese de que, embora o presidente Lula já tenha se inscrito no panteão dos grandes líderes nacionais, ao lado de JK e Getúlio Vargas, não será apenas com programas assistenciais, como o Bolsa Família, que o Brasil se tornará um lugar melhor. Requião escora-se num conceito, o de “Brasil Nação”, para elaborar um meticuloso, sofisticado e, por isso mesmo, hermético discurso econômico sobre a subordinação do país ao comércio de commodities com a China. “Estamos, outra vez, nos tornando uma plantation, um país produtor de commodities agrícolas, com todo o custo que isso traz ao meio ambiente”, reclama.

“Brasil Nação” é o nome do programa da TV Educativa do Paraná comandado pelo jornalista Beto Almeida, onde, no domingo passado, Roberto Requião voltou a soltar o verbo, ao vivo, sobre tudo e sobre todos – o que, para ele, é sempre um risco financeiro. A fim de impedi-lo de usar a TVE para romper o cerco midiático imposto a ele por quase toda a mídia privada, a Justiça do Paraná tem condenado Requião a pagar cerca de 400 mil reais toda vez que ele abre a boca por lá. O alvo é a “Escola de Governo”, uma reunião pública e semanal feita pelo governador com todo o secretariado estadual, transmitida ao vivo pela TVE do Paraná. Na ocasião, Requião aproveita para apresentar os resultados de sua gestão e, também, para dar opiniões e disparar críticas para todos os lados.

É um tempo, no entanto, prestes a acabar. Sem uma aliança capaz de garantir um sucessor à altura, Requião terá que se contentar em apoiar a candidatura de seu vice, Orlando Pessuti, também do PMDB. Pessuti, quase um negativo de Requião, é tranqüilo, obsequioso e apagado. Muito pouco para entrar na disputa no meio de cobras criadas do quilate dos irmãos e senadores Alvaro (PSDB) e Osmar Dias (PDT), e do bem avaliado (e preferido da mídia local) prefeito de Curitiba, o tucano Beto Richa.

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