De olho na mira, mas o alvo é ele

Pré-candidato à Presidência da República pelo PMDB, o governador do Paraná, Roberto Requião, sabe que não tem chance alguma de ser homologado como tal, em junho, na convenção nacional do partido. Requião se lançou nessa empreitada para fazer barulho e expor a contradição interna da sigla, distante, anos-luz, dos nortes democráticos traçados na trajetória do antigo MDB de guerra. O paradoxo do PMDB, no entanto, nada tem a ver com as vontades de Requião, esta legítima sob qualquer análise, mas reside no fato de que enquanto o governador se pretende presidente da República, o presidente do partido e da Câmara dos Deputados, o paulista Michel Temer, pretende-se vice. Ou falso vice, na visão de Requião.

“O que Temer quer ser é presidente mesmo”, brada Requião, entre irônico e indignado, com voz de trovão, empenhado em revelar intenções supostamente escondidas pelo sinistro semblante do presidente do PMDB. A lógica do governador paranaense faz sentido, embora tenha um quê de teoria conspiratória: caso seja eleita, a ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff (“uma gerentona”, segundo ele), teria enormes dificuldades de se relacionar com o Congresso Nacional, o que a tornaria refém do habilidoso Temer, raposa velha do Parlamento, ambiente pelo qual transita, há mais de três décadas, com grande desenvoltura. Assim, do Palácio do Jaburu, aprazível, mas anódina, residência oficial dos vices, Michel Temer conseguiria o que ninguém do PMDB conseguiu, desde o governo José Sarney, ou seja, mandar de fato no Executivo federal.

O discurso político de Roberto Requião é entrecortado, aqui e ali, por certo ressentimento orgânico, uma crescente desilusão com a história do PMDB e seu papel institucional periférico, embora relevante, nos caminhos dos governos que sempre apóia. No Brasil, como se sabe, é impossível governar sem o apoio do PMDB, dono de uma avassaladora máquina de votos espraiada por centenas de prefeituras municipais, câmaras de vereadores, assembléias legislativas, além da Câmara dos Deputados e do Senado Federal. Um enorme “exército sem general”, como bem define o jornalista Mauro Santayana, uma tropa muitíssimo adestrada no terreno do fisiologismo e do clientelismo, mas carente de um líder verdadeiro desde as mortes de Tancredo Neves e Ulysses Guimarães, ainda no alvorecer da chamada Nova República.

Ao colocar o próprio nome como alternativa eleitoral à Presidência da República, em 2010, Roberto Requião se insinua como candidato, também, a general dessa deserdada legião peemedebista, a conduzir o partido para além da posição subalterna em que tem se submetido desde que fez uma opção preferencial por cargos em detrimento de um projeto real de poder. Sabe, como todos sabem, que a briga do PMDB não será por uma candidatura própria, mas pela possibilidade de Michel Temer conseguir a boquinha de vice, embora este tenha, antes, que superar a ojeriza que a maior parte do PT tem pelo presidente da Câmara, apesar dos sorrisos pragmáticos que o presidente Lula e a candidata Dilma lhe dirijam, vez em quando, não sem algum constrangimento.

Requião ressente-se, ainda, do círculo de fogo aceso pela mídia em volta de si. Nos sete anos à frente do governo do Paraná, ele secou a fonte de financiamento público da imprensa e não colocou um tostão de publicidade na mídia local. Trata-se de uma mudança de rumo considerável, haja vista seu antecessor, Jaime Lerner, do DEM, ter despejado algo em torno de 2 bilhões de reais no setor, nos dois mandatos em que esteve à frente do governo. Em troca, Requião passou a levar pancada diariamente da mídia – paranaense e nacional –, que não lhe dá trégua nem voz, isso quando não opta por silenciar sobre toda e qualquer ação de governo que possa, ainda que indiretamente, render dividendos políticos ao governador. Isso em se tratando de uma gestão que mantém o maior salário mínimo regional do país, isentou de impostos todas as pequenas empresas do estado e mantém uma malha rodoviária totalmente liberta de pedágios. O governador, contudo, não foge dessa briga, pelo contrário, a alimenta, como quando espinafrou cada repórter presente na primeira coletiva que deu como governador reeleito, em 2006. Sem falar na postura política explícita, desavergonhadamente de esquerda, a ponto de classificar – para horror de certos editorialistas da mídia nativa – que o MST é “uma dádiva de Deus”.

É quase certo, portanto, que Roberto Requião acabe por levar seu estilo intempestivo e turrão de volta ao Senado Federal, onde deverá insistir na tese de que, embora o presidente Lula já tenha se inscrito no panteão dos grandes líderes nacionais, ao lado de JK e Getúlio Vargas, não será apenas com programas assistenciais, como o Bolsa Família, que o Brasil se tornará um lugar melhor. Requião escora-se num conceito, o de “Brasil Nação”, para elaborar um meticuloso, sofisticado e, por isso mesmo, hermético discurso econômico sobre a subordinação do país ao comércio de commodities com a China. “Estamos, outra vez, nos tornando uma plantation, um país produtor de commodities agrícolas, com todo o custo que isso traz ao meio ambiente”, reclama.

“Brasil Nação” é o nome do programa da TV Educativa do Paraná comandado pelo jornalista Beto Almeida, onde, no domingo passado, Roberto Requião voltou a soltar o verbo, ao vivo, sobre tudo e sobre todos – o que, para ele, é sempre um risco financeiro. A fim de impedi-lo de usar a TVE para romper o cerco midiático imposto a ele por quase toda a mídia privada, a Justiça do Paraná tem condenado Requião a pagar cerca de 400 mil reais toda vez que ele abre a boca por lá. O alvo é a “Escola de Governo”, uma reunião pública e semanal feita pelo governador com todo o secretariado estadual, transmitida ao vivo pela TVE do Paraná. Na ocasião, Requião aproveita para apresentar os resultados de sua gestão e, também, para dar opiniões e disparar críticas para todos os lados.

É um tempo, no entanto, prestes a acabar. Sem uma aliança capaz de garantir um sucessor à altura, Requião terá que se contentar em apoiar a candidatura de seu vice, Orlando Pessuti, também do PMDB. Pessuti, quase um negativo de Requião, é tranqüilo, obsequioso e apagado. Muito pouco para entrar na disputa no meio de cobras criadas do quilate dos irmãos e senadores Alvaro (PSDB) e Osmar Dias (PDT), e do bem avaliado (e preferido da mídia local) prefeito de Curitiba, o tucano Beto Richa.