
Esse ano não vai ser igual aquele que passou. Vai ser pior.
O carnaval de Brasília é um horror. Você pode defender muita coisa por aqui – o verde, o céu, o sol, a chuva, a paz, a tranqüilidade, as pistas largas – menos o carnaval. Primeiro porque, todo ano, chove no carnaval. É sempre uma festa mixuruca, mantida por uns poucos foliões recalcitrantes dispostos a colocar nas ruas um simulacro de desfile de escolas de sambas que não passam de um arremedo, quando não de uma versão maltrapilha, das escolas de samba do Rio de Janeiro e, vá lá, de São Paulo. O carnaval daqui é tão ruim, que nem o governador José Roberto Arruda, do DEM, empenhadíssimo em comemorar o cinqüentenário da capital federal, em 2010, se arriscou a bolar alguma coisa especial para a folia do ano que vem. Preferiu, na verdade, financiar uma escola do Rio, a Beija Flor, e capitalizar seus dirigentes, capitaneados por um bicheiro condenado pela Justiça, com dinheiro do contribuinte local.
Na imprensa de Brasília não se lê uma só linha a respeito, mas há pouco menos de dois meses, em 29 de setembro, o banqueiro do jogo do bicho Aniz Abraão David, 65 anos, presidente de honra da escola de samba Beija Flor de Nilópolis, do Rio de Janeiro, recebeu um cheque de 1,5 milhão de reais do governo do Distrito Federal. Até o carnaval do ano que vem, Anísio, como é conhecido o bicheiro, deverá receber outros 1,5 milhão para colocar na avenida o samba enredo “Brilhante como o sol do novo mundo, Brasília do sonho à realidade, a capital da esperança”, em homenagem à criação de Juscelino Kubitschek – que aliás, deve estar se remexendo no túmulo diante de tal homenagem. E também, certamente, por achar que isso é bastante dinheiro público na mão de um contraventor cuja ficha policial daria para cobrir parte considerável da Marquês de Sapucaí.
Aniz Abraão foi preso, pela primeira vez, em 1993, durante um histórico arrastão judicial comandado pela juíza Denise Frossard, no Rio de Janeiro, contra os principais chefes do jogo do bicho no estado. Condenado a seis anos de prisão, ficou apenas três anos na cadeia, de onde foi libertado por bom comportamento. Em abril de 2007, no entanto, Anísio voltou a ser preso, desta vez pela Polícia Federal, durante a Operação Hurricane, acusado de ligação com a máfia de contrabando de máquinas ilegais de caça-níqueis. Libertado por uma liminar do ministro Marco Aurélio Mello, do Supremo Tribunal Federal, também passou pouco tempo na cadeia. Em outubro de 2008, passou outra rápida temporada no xadrez, acusado de lavar dinheiro da mesma máfia carioca, mas em Natal, no Rio Grande do Norte.
Vale lembrar que entre os registros da Operação Hurricane a PF apresentou grampos telefônicos onde Aniz Abraão faz ameaças a jurados e seus familiares para forçá-los a dar o título de campeã do carnaval 2007 – o que, de fato, aconteceu.
Mesmo com essa ficha corrida, Aniz Abraão David foi colocado no centro de uma negociação nebulosa na qual se envolveram também o irmão dele, Farid Abraão David, presidente-executivo da Beija Flor, o governador do DF, José Roberto Arruda, o vice Paulo Octávio Pereira (DEM), a Liga das Escolas de Samba do Rio (Liesa), carnavalescos de Brasília, uma filha de JK, um executivo da TV Globo e um apadrinhado do carnavalesco Joãosinho Trinta, um dos símbolos da escola de Nilópolis.
A primeira escola de samba carioca a se interessar pela carnavalesca oferta de recursos distritais foi a Portela, em fevereiro de 2008. Na época, um dos dirigentes da escola, Carlos Monte, pai da cantora Marisa Monte, mandou um pré-projeto de samba enredo ao governador Arruda, antes mesmo do anúncio oficial do GDF. Em seguida, formalizada a disposição do governo local, veio a Brasília o presidente da Portela, Nilo Figueiredo, para se reunir com o vice Paulo Octávio, casado com uma neta de JK, Anna Christina Kubitschek.
Mas o peso familiar do criador de Brasília só foi sentido mesmo uma semana depois, quando outra escola de samba do Rio, a Mocidade Independente de Padre Miguel, se interessou pelo patrocínio oferecido pelo governo do Distrito Federal. Os dirigentes da escola se apresentaram para a disputa na capital com uma madrinha especial, a normalmente discreta Maristela Kubitschek, filha adotiva de JK. Em seguida, foi a vez da Porto da Pedra também se apresentar para a disputa. Foi quando o lobby da Beija Flor, até então alheia à proposta de Arruda, decidiu entrar na briga. E o fez pelas mãos de Ricardo Marques, ex-secretário de Cultura do DF durante o mandato-tampão de Maria Abadia, do PSDB, em 2006. Amigo de Joãosinho Trinta, a quem costuma abrigar em Brasília, Marques começou a girar a roda da fortuna a favor da família do bicheiro Aniz Abraão David.
A intermediação política a favor da Beija Flor no GDF foi reforçada pelo deputado federal Simão Sessim (PP-RJ), primo do bicheiro Anísio e pai do atual prefeito de Nilópolis, Sérgio Sessim, também do PP. A partir de então, a Empresa Brasiliense de Turismo (BrasiliaTur), responsável pelo contrato, estabeleceu como critério que as escolas postulantes tivessem estado entre as cinco melhores colocadas no ranking do carnaval carioca, nos últimos três anos. Com isso, Mocidade Independente de Padre Miguel e Porto da Pedra foram eliminadas, sumariamente.
Em maio passado, o vice Paulo Octávio foi a Nilópolis beijar o estandarte da Beija Flor, depois de ser procurado por outro intermediador de peso, Aloysio Legey, da TV Globo. Por 23 anos, Legey foi responsável pela transmissão do carnaval carioca na emissora da família Marinho, cargo do qual se afastou, no início do ano, por supostas desavenças profissionais internas. No fim das contas, a escola do bicheiro Anísio acabou por conseguir o patrocínio de 3 milhões de reais do governador Arruda sem precisar fazer muito esforço. Isso porque, inexplicavelmente, quatro outras grandes escolas do Rio – Portela, Salgueiro, Grande Rio e Unidos da Tijuca – abriram mão da competição na última hora.
Fazer a Beija Flor desfilar as cores de Brasília é parte de uma estratégia de marketing bolada para dar visibilidade ao cinqüentenário da capital, um dos trunfos políticos do governador Arruda. Para tal, conta com a ajuda do vice Paulo Octávio, também secretário de Turismo, a quem está subordinada a BrasiliaTur – um órgão louco por tertúlias caras. De fato, em 2008, apenas com festas e homenagens, o GDF gastou 26,1 milhões de reais, quatro vezes mais do que o ano anterior. Em 2009, até o final de agosto, 47,1 milhões de reais tinham sido gastos com shows e outras comemorações, segundo levantamento feito pelo Siggo, o sistema de acompanhamento de gastos do GDF disponibilizado aos deputados distritais.
Os carnavalescos de Brasília estão longe de receber a mesmo tratamento dado à família do bicheiro Anísio, no Rio. No dia 6 de outubro passado, o presidente da União das Escolas de Samba de Brasília, Frederico Pereira, foi avisado pela BrasiliaTur que a verba prevista para ser distribuída às 18 escolas do Distrito Federal seria diminuída de 3,4 milhões para 2,8 milhões de reais – sem direito a adiantamento, como no caso da Beija Flor.
Ou seja, no carnaval de Brasília, folia mesmo, só com a grana do contribuinte. A minha, a sua, a nossa.
08/11/2009 at 17:12
Excelente artigo. Pena que o povo do DF – de todo o DF – tem tino para cair nesse tipo de esparrela.
08/11/2009 at 18:23
Esse ARRUDA faz o que quer ele gastou em 2009 125 milhões em publicide institucional, isto é quase 40 milhões maior do que o governo LULA gastou. Isto é verdade o Lula gastou 85 milhões com publicidade institucional e o ARRUDA gastou 125 milhões. isto daria uma excelente matéria.
09/11/2009 at 09:40
[...] Folia terceirizada « Brasília, eu vi a few seconds ago from IdentiFox [...]
09/11/2009 at 12:38
[...] Folia terceirizada O carnaval de Brasília é um horror. Você pode defender muita coisa por aqui – o verde, o céu, o sol, a chuva, a [...] [...]
09/11/2009 at 19:15
Sensacional matéria sobre essa manobra política do Arruda. É impressionante como esse tipo de matéria não vai para o cenário público de forma mais ampla.
10/11/2009 at 15:52
Leandro, lembrei de uma das notícias mais esdrúxulas que já passei. Foi na cobertura ao vivo da Rádio Nacional (ainda pela antiga Radiobrás), durante o desfile das escolas do segundo grupo (é garoto, existe…) no Ceilambódramo, em 2005. Chamei da “concentração” para avisar os ouvintes que a escola Colibris do Cerrado iria para a avenida sem a bateria, só no gogó. Eles haviam terceirizado os componentes e instrumentos da Império do Guará, mas só esqueceram de pagar. Todos ritmistas com as fantasias (de carnavais passados do Rio) e parados. Greve geral!!! Em 2006 foi a comissão de frente de outra agremiação (me foge o nome). Também sem receber, sairam correndo pela avenida, como se estivessem na final dos 100m de uma Olimpíada. Abriram e fecharam o desfile em 12s, depois veio o resto …
10/11/2009 at 20:07
Não tenho o direito de me sentir indignada com uma notícia dessas. Afinal, nasci, fui criada e moro no Brasil. Arruda e P.O, em qualquer país sério, já estariam encarcerados há tempos. Mas aqui o que vigora mesmo é “panem et circenses”, amigos.
11/11/2009 at 14:29
Que legal seu post, Leandro. Seria bom também nos debruçarmos sobre a ainda-por-contratar grande festa dos 50 anos de Brasília, para a qual são cogitadas, como “a grande atração”, Madonna, Paul McCartney e Beyonce Knowles. Veja o que diz um outro jornalista local, o Livio di Araújo (aqui: http://www.jornalalobrasilia.com.br/blogs/?IdBlog=6&IdPost=2156): “Ainda segundo a fonte, Paul MacCartney não estaria “completamente” fora do páreo. ‘Por puro saudosismo do Paulo Octávio. Ele quer porque quer o ex-beatle’, contou.” O vice-governador garante sua festinha estilo “jovem guarda” ou “os bons tempos voltaram” com dinheiro público, mas sem consulta pública! E, poxa, o que falar de comemorar os 50 anos de Brasília, com tudo o que a construção da cidade representou simbólica e historicamente, com medalhões estrangeiros? Voltamos à era pré-Brasília, a era do “complexo de vira-lata”, a era da grande “atração internacional”, numa etapa em que o Brasil retoma o fio de sua afirmação global! Gil, Caetano, Banda Calypso, Axé, Olodum, João Gilberto… não importa! Mas que seja coisa nossa, pelamordedeus! Esse pessoal do DEM é, de fato, de uma cafonice inferior…
11/11/2009 at 15:53
Pffff, mas depois o Arruda chora, pede desculpas e o povo o coloca no poder outra vez. Quem sabe ele não toma posse embalado pelos enredos da Beija Flor…
13/11/2009 at 12:18
O pior é que, no DF, estamos entre Arruda e Roriz! Alguém merece? Em qualquer país estariam atrás das grades, aqui, na CAPITAL, mandam e desmandam. Em plena capital da República, em pleno século vinte e um, vivemos a era dos cumpades e coronelis.E aí, PT do DF? Ofereça-nos algo melhor ( mas nada de Cristovam), rápido, ou queimaremos no fogo do inferno para sempre.
13/11/2009 at 23:33
Boa noite.
Mudando um pouco de assunto, o sr. viu esta notícia: “Policiais espancam operários em Petrolina” (http://www.pebodycount.com.br/post/postUnico.php?post=1119)?
Não lembra algo?
14/11/2009 at 12:43
Caro Leandro Fortes, muito bem embasadas as suas histórias, mas eu colocaria de outra forma tb.
Os carnavalescos do Distrito Federal, sempre fazem das tripas/coração, para realizarem suas “FOLIAS”. Todo ano a mesma briga. são guerreiros de fé que acreditam um dia que o carnaval do DF seja melhor ou igual aos outros estados.
O Fato é que se o Governador URTIGA tivesse repassado 3 milhões pra Águia Imperial de Ceilândia, ou a Aruc juro pra você QUE SAIRIA LETRAS EXTRAORDINÁRIAS sobre o carnaval do plano pilito.
No mais parabéns pela coragem de postar matéria tão significativa.
Wellington Abreu
15/11/2009 at 17:32
Companheiro e conterrâneo Leandro
Nossa Bahia vitima constante do jugo de políticos incompetentes e corruptos, tinha o melhor carnaval do planeta.
A gente sentava na Praça do Relógio, e esperava os amigos passarem, para abraçar e beijar com muita alegria. É carnaval, dizíamos!!!!!!!!!!!!!!!!!!!.
Hoje o carnaval é qualquer coisa, menos alegria. Venderam nosso carnaval para as almas penadas do inferno.
Bom, carnaval de Brasília é uma piada, passei o ano passado aqui, e vi. Portanto minha avaliação, é que nossos brilhantes políticos, aproveitam a folia de Momo para encher as burras.
Como¿ assim ó: pagam cachês superfaturados e dividem as beiradas!!!!!!!!!!!!!!!
E em ano de eleição, nada mais justo, afinal eles vão precisar das burras cheias!
Já sabemos que o Paul Maccartney e a Beija Flor vão estar aqui, e os artistas do DF vão estar aonde nesta folia com o dinheiro pública¿¿¿¿¿¿¿¿¿¿¿¿¿¿¿
Simone de Moraes
18/11/2009 at 11:09
Caro Leandro
O blog FBI ainda continua sumido. Tentei acesso a poucos minutos e esta é a mensagem do Blogger:
“O blog foi removido
Desculpe, o blog em festivaldebesteirasdaimprensa.blogspot.com foi removido. Esse endereço não está disponível para novos blogs.”
Será possível que estão repetindo a besteira de tentar eliminar um blog independente?
Não sou dado a seguir teorias conspiratórias, mas pelos movimentos que se vê nos últimos anos na classe política de oposição e seus apoiadores midiáticos, não seria de se surpreender.
Acho que mereceria uma campanha, do tipo que o PHA faz no Conversa Afiada perguntando “quem é Stanley Burburinho?”. Temos de perguntar “aonde está o FBI?”.Ele construía críticas principalmente sobre a opinião de Miriam Leitão e ao Sardenberg com muita qualidade. Talvez seja um bom momento de mostrar que os blogs independentes tem força para “ver” o que ocorre na internet com seus pares e reagir.
Estou postando esta mensagem em vários sites na internet.
18/11/2009 at 19:51
Excelente matéria, Leandro.
Li há poucos dias seu livro sobre Jornalismo Investigativo.
Isso é que é acalmar o cachorrinho, hein?
Ótima apuração e, como sempre, ótimo texto.
20/11/2009 at 21:39
Leandro, acompanho teus textos na C.C.
Sobre este assunto teu texto é justo.
E se me permite um complemento, a midia gosta desses bicheiros, até beijam suas mãos, afinal o carnaval que é deles, dá bons lucros mutuos, que é o que mais importa. Politicamente nem se fala, afinal o conluio possibilita currais eleitorais ue permitem reeleições ad eternum, o exemplo o próprio Sessim. Isso me lembra aqueles filmes americanos onde a elite corrupta frequenta os espaços dos gangsters sem nenhum pudor pelos favores mutuos. Alias, essa condescendência e transigência com a ilegalidade é um situação que de tão antiga também já virou um traço cultural nacional.
24/11/2009 at 00:13
tem um erro ai, Itamar é só um pobre coitado q caiu de paraquedas na presidência, ele é tão responsável sobre o plano real quanto eu sou por levar o brasil a copa
27/11/2009 at 18:50
A respeito das notícias de hoje sobre o Governador do DF, lembro seu blog de maio último, a respeito do acordo aparentemente rompido entre o atual titular e seu vice.