agosto 2009


Uni-vos!

Uni-vos!

Não tem mais “barriga” nos jornais brasileiros, ninguém é sequer advertido quando faz uma cagada. Só pode ser. Ou é má fé explícita. Essa matéria recente sobre Tião Viana, na Folha de S.Paulo, tirada do nada, é uma investigação jornalística enviesada, usada para encobrir uma óbvia encomenda editorial. A assessoria do senador já havia informado à repórter sobre o fato de o imóvel estar no nome da mulher dele. Mas aí aparecem os tais “especialistas” convocados, sistematicamente, para dar suporte às chifradas jornalísticas dessa que ainda se intitula “grande imprensa”.

 Olhem o trecho da chamada do portal UOL, do qual sou assinante, e, por isso, cobro duplamente:

 “A assessoria do senador alegou que o terreno não foi declarado à Justiça Eleitoral porque pertencia à sua mulher, Marlúcia Cândida Viana. Mas, como o senador é casado em regime de comunhão total de bens, o imóvel pertence aos dois, segundo tributaristas ouvidos pela Folha.”

O que significa isso? A interpretação ocasional de tributaristas como mecanismo para se montar um escândalo! Não nutro nenhuma simpatia pelo senador Tião Viana, tão novo e já deslumbrado com a chaga do patrimonialismo, a ponto de ter dado à filha, em viagem de férias ao México, um celular do Senado para que ela gastasse à vontade. Coisa, aliás, que ela levou a sério: a conta foi de 14 mil reais, só ressarcidos aos cofres públicos porque a mordomia foi descoberta. Isso, no entanto, não justifica o exercício de um certo tipo, este sim, escandaloso, de jornalismo, cada vez mais difundido como normal e corriqueiro. E é coisa diária, diuturna, que despreza a inteligência alheia, o poder da internet, a capacidade de reação dos leitores e dos jornalistas, estes, culpados em última instância.

A canalha é de jornalistas, não de patrões, é preciso que se diga. Quem faz o trabalho sujo nas redações não são os donos dos meios de comunicação, são os jornalistas. O problema é que as redações, hoje, têm gente demais disponível para fazer qualquer coisa. Vive-se a primazia da má fé e louva-se a inversão dos valores como condição primordial à sobrevivência dentro do mercado. Não é verdade. É possível ser jornalista e trabalhar em qualquer lugar sem se submeter ao mau-caratismo. Arriscado, mas possível.

O pior é que nós, jornalistas, temos uma arma institucional com alto potencial de marketing corporativo, a cláusula de consciência do Código de Ética, mas a coisa virou letra fria. Tinha que ter uma campanha dos sindicatos e da Fenaj, dentro das redações, com o slogan “Isso eu não faço!”. Para o jornalista novo, o foca, o repórter que está angustiado se sentir apoiado pela categoria. Para dizer, sem medo: isso eu não faço porque é ilegal, é imoral, é desrespeitoso, é injusto, é antijornalístico, enfim.

A internet abriu uma perspectiva sem limites para se fazer alguma coisa de concreto, além de expor esse estado de coisas na blogosfera, que já é uma coisa sensacional. Eu queria muito que todos nós, jornalistas do Brasil, pensássemos na possibilidade de criar um blog coletivo, jornalístico, independente, com receita publicitária capaz de fazer as coisas funcionarem. Para se posicionar acima dessas figuras que aí estão, cheias de cargos, títulos honoríficos e salários polpudos, mas incapazes (ou capazes até demais) de entender o valor agregado da blogosfera e o potencial crítico – e realmente jornalístico – do mundo virtual.

As grandes estruturas de comunicação do Brasil têm dinheiro, crédito, pessoal e equipamento, mas, apesar de toda essa vantagem, estão aprisionadas por compromissos políticos e econômicos cada vez mais restritos. Ficam assustadíssimas, contudo, com a capacidade que a internet tem para tornar explícita essa relação e, mais ainda, colocar a nu o mundinho autista e auto-referencial no qual estão encapsuladas. Um mundo onde repórteres e colunistas escrevem uns para os outros, se auto elogiam e compartilham vaidades ensaiadas, numa tentativa patética de se parecer com quem lhes paga o salário. O resultado disso é um descolamento absoluto da realidade social, na qual se inserem de forma superficial e, por isso mesmo, descompromissada, como se fazer jornalismo fosse, como quer o STF, tarefa para qualquer um.

A Sociedade Americana de Revistas dos Estados Unidos calculou, no ano passado, que criar uma revista de papel e lança-la nacionalmente custa cerca de 15 milhões de dólares por mês. Uma, na web, sai por 100 mil dólares. Essa relação não deve ser muito diferente no Brasil. Talvez seja até mais barato. Entre 1976 e 1983, jornalistas do Rio Grande do Sul, jogados no desemprego por se posicionarem contra a ditadura militar, fundaram e tocaram o Coojornal, uma experiência jornalística corajosa e altamente profissional, baseada no cooperativismo. Talvez seja a hora de pensarmos em algo semelhante, antes que só restem maus exemplos – embora, dizia Santo Agostinho, sejam esses os melhores exemplos para quem se disponha a aprender, verdadeiramente,  a diferença entre o bem e o mal.

A parte que lhe cabe neste latifúndio

A parte que lhe cabe neste latifúndio

Por Ayrton Centeno ( retirado do blog RS Urgente)

O tiro que partiu da boca da espingarda 12 rumo ao corpo do sem terra Élton Brum da Silva foi disparado muito antes da manhã triste de inverno no coração da Campanha gaúcha. A bala começou a voar em tempos pretéritos, antes até do também triste governo de Yeda Crusius ser inaugurado com a governadora desfraldando invertida a bandeira do Rio Grande do Sul na sacada do Palácio Piratini. E o lema estampado no brasão “Liberdade, Igualdade, Humanidade”, que vai beber na fonte da Revolução Francesa e dos direitos fundamentais do homem, ficou de cabeça para baixo. Era um mau presságio.

O tiro com sua bala vem viajando, na verdade, desde décadas mas apressou-se nos últimos anos. Seu apetite tornou-se mais urgente. A nomeação de um militar com o perfil psicológico do coronel Paulo Roberto Mendes para o comando da Brigada Militar garantiu-lhe um impulso extra. Esta figura extemporânea aportou no governo – curiosamente de um partido que se diz social e democrata – um duplo ódio às manifestações da sociedade na democracia. Tudo bem, as palavras são, com freqüência, um biombo atrás do qual se perpetram os crimes mais hediondos contra o seu sentido original e a social-democracia em questão é somente uma alegoria no nosso carnaval político, a comissão de frente da direita no Brasil. Mas, convenhamos, seria uma demonstração de elegância protocolar que, ao menos, as aparências fossem mantidas. Nada disso. Sob a égide do PSDB, a bala passou a voar mais celeremente em busca do seu alimento.

O tiro aligeirou-se mas ainda zanzava a procura de seu alvo. Durante seu reinado, Mendes, o Bravo, destruiu acampamentos e seus soldados não menos bravamente despejaram terra nas panelas de comida que alimentariam homens, mulheres e crianças. Fez sangrar manifestantes, do campo e da cidade, até ser despachado para uma sinecura no Tribunal Militar do Estado, uma instituição fora de tempo e lugar, altamente merecedora do oficial de notável saber jurídico que passou a integrá-la.

O tiro que tanto espaço percorrera para saciar sua fome achou, enfim, seu repasto na dia 21 de agosto, ao se encontrar com Élton. Mendes partira mas outro coronel, Lauro Binsfield, ficou na linha de frente da repressão. Denunciado à Organização dos Estados Americanos (OEA) por violação dos direitos humanos, foi mantido, mesmo assim, à testa das operações de guerra da BM no campo.

O tiro, peculiarmente, não foi deflagrado por apenas uma arma. Ele cumpriu seu fado sinistro porque muitos dedos apertaram muitos gatilhos. É ilusório pensar que o disparo só pertence a quem apontou a espingarda para desferí-lo.

O tiro não surgiu necessariamente como tiro. Nasceu, por exemplo, do entendimento de que a questão social é um caso de polícia e assim tem que ser tratada. Nasceu de uma caneta correndo sua tinta sobre o decreto de uma nomeação.

O tiro também partiu dos microfones, dos teclados, dos teleprompters. Da voz do dono e dos aquários. Brotou de uma ação ou mesmo de uma omissão. Na mídia, são muitos os dedos e os gatilhos que foram apertados. Uma imprensa para a qual a democracia não fosse somente uma palavra-biombo questionaria, por exemplo, a entrega do bastão do aparelho repressor a alguém desprovido das mínimas condições para empunhá-lo. Em vez disso, o que se viu foi um constrangedor capachismo dedicado à criação de mitologias reacionárias para afagar os sentimentos mais mesquinhos da classe média. Mas há torpezas piores. O fuzilamento sumário do MST nas manchetes, matérias, fotos, editoriais, artigos construiu um rancor belicoso no imaginário social contra famílias que reivindicam um pedaço de terra. E ocultou que os países importantes do mundo realizaram sua reforma agrária ainda no século 19 ou nos meados do século passado, medida que as elites brasileiras, até recorrendo ao golpe como aconteceu em 1964, impediram desde sempre.

O tiro viajou como outros viajaram no passado. Um dos filmes mais odiosos jamais feitos, O Eterno Judeu, de Franz Hippler, estreou em 1940, em Berlim, perante uma platéia sofisticada: artistas, cientistas, damas da sociedade e a fina flor do partido nazista. Na montagem alternam-se as cenas dos judeus, mostrados como preguiçosos, sujos e indignos, com moscas numa parede. É preciso convencer as pessoas de que aquilo é uma praga e precisa ser exterminada – mais tarde, um pesticida, o Ziklon B, será empregado na solução final. A arte de Hippler prepara o holocausto. Alguém dirá: mas esta é uma comparação extremada, vivemos em uma democracia! Sim, é verdade, apesar do coronel Binsfield. Mas não se pretende aqui, supor equivalentes a época, as partes, o tamanho da violência. O interesse está no processo. Quando a intenção é destruir o adversário – e isto se faz de diversas formas, como ao superexpor seus erros e/ou sonegar suas virtudes, usando do poder devastador dos conglomerados de mídia — o modus operandi é similar., Se o objetivo final, conscientemente ou não, é negar a humanidade do outro, tudo é possível. Porque o outro, então, está fora da proteção do arcabouço jurídico. Não é gente. E o passo seguinte pode ser sua eliminação, física inclusive.

Outros tiros continuam viajando para encontrar suas presas. E muitos outros irão se juntar a eles. Aquele que se refestelou na carne e no sangue de Élton, 44 anos, dois filhos, deixou de viajar. Nas redações, muitas mãos têm resíduos de pólvora.

Recebi, esta semana, a seguinte mensagem, por e-mail:

Leandro Boavista Fortes
CARTA CAPITAL – SP

Caro (a) Leandro Boavista Fortes,

Parabéns! Você está entre os indicados do Prêmio Comunique-se 2009 e já pode se sentir um vencedor.

Como você sabe, o Prêmio Comunique-se é o único em que os jornalistas são indicados pelo voto dos próprios colegas, ou seja, aqueles que mais entendem de jornalismo.

A cerimônia de entrega será no dia 29 de setembro, uma terça-feira, em São Paulo, e mais uma vez reunirá a nata do jornalismo e da comunicação. A premiação é uma grande festa, uma oportunidade única de se reunir com colegas dos principais veículos de comunicação.

Escolha agora mesmo os finalistas do Prêmio Comunique-se 2009 clicando aqui.

Nos vemos lá e boa sorte nesta nova etapa de votação!

Abraços,

Rodrigo Azevedo
Presidente – Comunique-se

Para minha surpresa e felicidade, colegas de todo o Brasil me indicaram para concorrer em duas categorias (repórter de mídia impressa e jornalista político) do Prêmio Comunique-se 2009. O fato de trabalhar na CartaCapital, um barco pequeno e valente que só rema contra a maré, faz dessas indicações um ato mais do que relevante, porque, normalmente, reservadas a repórteres de tradicionais jornalões e semanais de monumental circulação. A todos que me indicaram, portanto, a minha enorme gratidão pelo reconhecimento.

Então, se você é jornalista e passou por esse blog, aproveite para ir no site do Comunique-se votar em mim, porque, como todos sabemos, a vaidade do jornalista é uma doença que não se cura só com xarope e sermão!

Basic RGBA Escola Livre de Jornalismo é, como a Escola de Sagres, muito mais um conceito do que, propriamente, um espaço físico voltado para o ensino acadêmico. Na verdade, é uma escola sem sede nem estrutura formal elaborada a partir de uma idéia minha, com a ajuda de dois grandes amigos e ótimos jornalistas de Brasília, Gustavo Krieger e Olímpio Cruz Neto.  Há dois anos, temos feito parcerias com instituições ligadas ao ensino e difusão de jornalismo para organizar ciclo de palestras e oficinas de prática jornalística para melhorar, sobretudo, o nível da garotada que acabou de se formar. Como o diploma de jornalismo foi relegado ao esquecimento e à irrelevância, achamos um motivo a mais para levar esse projeto adiante. 

Agora, a Escola Livre de Jornalismo juntou-se ao premiado site Contas Abertas  para oferecer, no segundo semestre de 2009, uma oficina de prática jornalística voltada à investigação de gastos públicos da administração direta do governo federal. Durante cinco semanas, com aulas ministradas aos sábados, estudantes de jornalismo e jornalistas irão aprender a decifrar e transformar em pauta jornalística as informações que se escondem atrás do universo de siglas, verbas, empenhos e pagamentos referentes às ações orçamentárias do governo federal. O curso segue uma tendência do jornalismo mundial voltada para a utilização racional dos instrumentos de informática e acesso a informações de acesso restrito, pela internet, para produção de pautas e reportagens jornalísticas.

Mais informações no site da Escola Livre de Jornalismo

Corta a cota!

Corta a cota!

Enquanto interessava às elites brasileiras que a negrada se esfolasse nos canaviais e, tempos depois, fosse relegada ao elevador de serviço, o conceito de raça era, por assim dizer, claríssimo no Brasil. Tudo que era ruim, cafona, sujo ou desbocado era “coisa de preto”. Nos anos 1970 e 1980, na Bahia, quando eu era menino grande, as mulheres negras só entravam nos clubes sociais de Salvador caso se sujeitassem a usar uniforme de babá. Duvido que isso tenha mudado muito por lá. Na cidade mais negra do país, na faculdade onde me formei, pública e federal, era possível contar a quantidade de estudantes e professores negros na palma de uma única mão.

Pois bem, bastou o governo Lula arriscar-se numa política de ações afirmativas para a high society tupiniquim berrar para o mundo que no Brasil não há racismo, a escrever que não somos racistas. Pior: a dizer que no Brasil, na verdade, não há negros.

Antes de continuar, é preciso dizer que muita gente boa, e de boa fé, acha que cota de negros nas universidades é um equívoco político e uma disfunção de política pública de inserção social. O melhor seria, dizem, que as cotas fossem para pobres de todas as raças. Bom, primeiro vamos combinar o seguinte: isso é uma falácia que os de boa fé replicam baseados num raciocínio perigosamente simplista. Na outra ponta, é um discurso adotado por quem tem vergonha de ter o próprio racismo exposto e colocado em discussão. Ninguém vê isso escrito em lugar nenhum, mas duvido que não tenha ouvido falar – no trabalho, na rua, em casa ou em mesas de bares – da tese do perigo do rebaixamento do nível acadêmico por conta da presença dos negros nos redutos antes destinados quase que exclusivamente aos brancos da classe média para cima – paradoxalmente, os bancos das universidades públicas.

Há duas razões essenciais que me fazem apoiar, sem restrições, as cotas exclusivamente para negros. A primeira delas, e mais simples de ser defendida, é a de que há um resgate histórico, sim, a ser feito em relação aos quatro milhões de negros escravizados no Brasil, entre os séculos XVI e XIX , e seus descendentes. A escravidão gerou um trauma social jamais sequer tocado pelo poder público, até que veio essa decisão, do governo do PT, de lançar mão de ações afirmativas relacionadas à questão racial brasileira – que existe e é seríssima. Essa preocupação tardia das elites e dos “formadores de opinião” (que não formam nada, muito menos opinião) com os pobres, justamente quando são os negros a entrar nas faculdades (e lá estão a tirar boas notas) é mais um traço da boçalidade com a qual os crimes sociais são minimizados pela hipocrisia nativa. Até porque há um outro programa de inserção universitária, o Prouni, que cumpre rigorosamente essa função. O que incomoda a essa gente não é a questão da pobreza, mas da negritude. Há contra os negros brasileiros um preconceito social, econômico, político e estético nunca superado. O sistema de cotas foi a primeira ação do Estado a enfrentar, de fato, essa situação. Por isso incomoda tanto.

A segunda razão que me leva a apoiar o sistema de cotas raciais é vinculado diretamente à nossa realidade política, cínica, nepotista e fisiológica. Caso consigam transformar a cota racial em cota “para pobres”, as transações eleitoreiras realizadas em torno dos bens públicos irão ganhar um novo componente. Porque, como se sabe, para fazer parte do sistema, é preciso se reconhecer como negro. É preciso dizer, na cara da autoridade: eu sou negro. Alguém consegue imaginar esses filhinhos de papai da caricata aristocracia nacional, mesmo os mulatinhos disfarçados, assumindo o papel de negro, formalmente? Nunca. Preferem a morte. Mas se a cota for para “pobres”, vai ter muito vagabundo botando roupa velha para se matricular. Basta fraudar o sistema burocrático e encher as faculdades públicas de falsos pobrezinhos. Ou de pobrezinhos de verdade, mas selecionados nas fileiras de cabos eleitorais. Ou pobrezinhos apadrinhados por reitores. Pobrezinhos brancos, de preferência.

Só um idiota não percebe a diferença entre ser pobre branco e pobre negro no Brasil. Ou como os negros são pressionados e adotam um discurso branco, assim que assumem melhores posições na escala social. Lembro do jogador Ronaldo, dito “Fenômeno”, ao comentar sobre as reações racistas das torcidas nos estádios europeus. Questionado sobre o tema, saiu-se com essa: “Eu, que sou branco, sofro com tamanha ignorância”. Fosse um perna-de-pau e tivesse que estudar, tenho dúvidas se essa seria a impressão que Ronaldo teria da própria cor, embora seja fácil compreender os fundamentos de tal raciocínio em um país onde o negro não se vê como elemento positivo, seja na televisão, seja na publicidade – muito menos nas universidades.

O fato é que somos um país cheio de racistas. Até eu, que sou branco, sou capaz de perceber.

 Em tempo: o leitor Antonio Carlos Bicarato me passou o link de um quadro da antiga (e sensacional) TV Pirata que ilustra com perfeição esse conflito racial mal escondido do Brasil. Como bem refletiu Bicarato, alguém consegue imaginar uma coisa assim, hoje, nessa péssima e politicamente correta tevê aberta brasileira?

Eu estava prestes a escrever sobre a mais nova baixaria do Senado, mas Paulo Henrique Amorim fez uma análise definitiva do bate-boca entre Renan Calheiros e Tasso Jereissati. No vídeo acima, observem a cara de tacho de José Sarney. Sem autoridade, sem moral, sem respeito. Esse Senado envergonha a todos nós, brasileiros. Divirtam-se e chorem:

Minoria com complexo de maioria ou o partido do jatinho

Por Paulo Henrique Amorim (Conversa Afiada)

. O debate desta quinta feira no Senado foi especialmente esclarecedor.
. Por que o PSDB, segundo Renan Calheiros, é “a maioria com complexo de maioria “?
. Porque os tucanos – em que o peso de São Paulo é predominante – pensam que são melhores que os outros.
. Porque os tucanos – e subsidiariamente sua linha auxiliar, os Demos – são mais ricos.
. E terceiro, porque os Demo-tucanos controlam o PiG (*).
. Isso deu a eles a sensação de maioria, especialmente porque o Presidente da República foi um metalúrgico – e é nordestino !
. A percepção de que controlar o PiG (*) resolvia o problema começa a se esfacelar.
. E não só porque a Internet e os blogs adquiriram a relevância que tem no Brasil.
. Em boa parte por causa da falencia do PiG (*). Mas, também , porque houve uma super-utilização do poder do PiG (*).
. Em todo país do mundo, o jornal vai atrás da denúncia do parlamentar.
. O jornal cobre o parlamentar.
. No Brasil, como a oposição não tem o que dizer.
. O PiG (*) manda no parlamentar (de oposição).
. É patética a cena do senador Arthur “caso de psiquiatra” Virgilio, no jornal nacional, a compulsar meia dúzia de recortes do PiG (*) para subir à tribuna com argumentos, no mínimo, velhos …
. No Brasil, o PiG (*) começa a esgotar sua capaciade de condicionar o debate publico e gerar crises, como disse o profesor Wanderley Guilherme dos Santas.
. Tanto assim, que o presiente do Conselho de Ética, Paulo Duque avisou que reportagem do PiG (*) não é prova contra o Sarney.
. Começa a chegar ao fim a capacidade de o PiG (*)  chantagear o país com crises que ele proprio fabrica e que os demo-tucanos dão vida política no Congresso (especialmente no Senado).
. Os demo-tucanos se viciaram em PiG (*).
. O PiG (*) se viciou em demo-tucanos.
. E os dois precisam de se recolher a uma clínica de reabilitação.
. Provavelmente uma clínica geriátrica…
. O que restou do salutar debate no Senado foi a confissão do Senador Tasso Jereissati de que tem jatinho porque pode.
. Tenho porque posso.
. Foi o momento “Silvio Berlusconi” dele.
. A exibição da riqueza da forma mais escrachada.
. Como se fosse um atributo de Deus.
. Não se tem notícia de que Nelson Rockefeller, um dos mais destacados homens públicos americanos – e uma das maiores fortunas construídas no século XX – , ou seu sobrinho, hoje no Senado, jamais tenha dito: tenho porque posso.
. E Rockefeller não era dono um jatinho.
. Era dono de vários, porque possuía uma empresa de aviação comercial (além de alguns poços de petróleo…).

. Nelson até brincava em comícios, quando sugeriam que ele gastasse dinheiro do próprio bolso em alguma campanha – era um pão-duro.

. Ele dizia: quem você pensa que eu sou ? Um Rockefeller ?

.  John Kerry é casado com uma das herdeiras mais ricas dos Estados Unidos.
. Fez uma campanha presidencial, apanhou de George Bush, foi acusado de “esquerdóide” -e jamais se vangloriou de ser rico.
. Tasso Jereissati pode ter muito mais do que um jatinho.
. Ele é dono de metade do Ceará.
. E de múltiplos instrumentos do PiG (*) local.
. Só falta, pelo jeito, uma coisa ao Tasso Jereissati:
. Pudor.

Tempo de plantar

Tempo de plantar

Eu não votei no senador Ali Kamel

por Luiz Carlos Azenha (Vio o mundo)

Maravilhosa a polêmica que envolve o Senado brasileiro.

O elenco é portentoso. Artur Virgílio, Pedro Simon, José Sarney, Renan Calheiros, Fernando Collor de Melo…

Vivemos uma época em que os políticos se transformaram em despachantes de luxo. Vide a CPI feita sob encomenda para atender aos interesses do banqueiro Daniel Dantas.

Quem influencia mais a política agrícola/agrária do Brasil: a Marina Silva ou a Monsanto? Quem faz as leis do setor de comunicação: a Globo ou o Mercadante?

Se assim é, se o sistema político brasileiro não dá conta de ser verdadeiramente democrático e de atender às demandas de todos os setores da população, enquanto na calada da noite atende a todos os grandes interesses dos conglomerados econômicos, que pelo menos não nos neguem o circo.

Sim, o pão talvez viesse se o Senado fosse extinto e fosse convocada uma Assembléia Nacional Constituinte para valer.

Mas a coragem nunca fez parte do cardápio político brasileiro. Quando a esquerda ascende ao poder rapidamente espera que esqueçam o que ela prometeu, do mesmo jeitinho que o ex-presidente FHC pediu que esquecessem o que ele escreveu. FHC, aliás, que andou nos advertindo contra “aventureiros”, da esquerda ou da direita, que poderiam empalmar o poder no rastro do “escândalo” do Senado.

Vai esperar sentado.

O Senado brasileiro não é hoje nem melhor, nem pior do que antes. É um corpo extremamente conservador da política brasileira. Por mim poderia, sim, ser extinto.

Mas, se não é, que sirva de circo.

Aviso logo que, nesse caso específico, torço para os bandidos.

Impagável ver Collor, Renan e Simon se pegando no plenário. Não há ingênuos naquele lugar, como voces bem sabem. É a antecipação da campanha eleitoral. A turma do Serra tentando enfraquecer a turma da Dilma. As duas turmas se merecem.

E eu torço para os bandidos dos dois lados. Sim, porque nesse enredo novelesco-televisivo — hoje um dos senadores da oposição disse dramaticamente aos jornalistas viver “num calvário” — os mocinhos são aqueles que a campanha de José Serra encarregou de “estimular” a massa: Ali Kamel, Otavinho e os editores de Veja, aqueles que plantaram uma serpente no Congresso.

São os assessores, por assim dizer, “imagéticos” da “crise do Senado”.

São os encarregados de mobilizar a opinião pública com o objetivo de derrubar Sarney.

Além de interditar os debates necessários, que a sociedade brasileira precisa fazer — sobre o pré-sal, por exemplo –, os “assessores” querem pautar a opinião pública, o Congresso e o Planalto sem terem obtido um voto sequer para isso.

É por isso que fico com Sarney, Agripino Maia, Renan Calheiros e tudo o mais que o Senado nos reserva.

Eu não votei no Ali Kamel.

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